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08 agosto 2011

O deputado e o laboratório


Que os políticos pouco se preocupam com fidelidade partidária, todo mundo sabe. O comportamento-padrão da maioria é pautar-se prioritariamente por interesses particulares ou corporativistas. Isso ocorreu em maio na votação do Código Florestal, quando deputados da bancada ruralista ignoraram a vontade do governo e dos partidos e seguiram a orientação da “categoria”. Algumas relações, porém, ultrapassam o mero interesse de classe. Esse parece ser o caso do deputado federal mineiro Geraldo Thadeu, um ex-tucano que hoje está filiado ao pós-comunista PPS, mas já assinou o ato de criação do PSD, o partido que está sendo montado pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. Atos, decisões, declarações e até doações dadas e recebidas por Thadeu sugerem que sua fidelidade maior é a um grupo empresarial comandado pelo empresário Fernando Marques, dono do laboratório União Química Farmacêutica. 

Numa atitude classificada como ilegal por procuradores da República, Thadeu cedeu a Fernando Marques cerca de R$ 100 mil da cota de passagens aéreas que a Câmara lhe dá para o exercício do mandato parlamentar. Tudo pago com dinheiro público. Cópias de bilhetes, vouchers e planilha de gastos comprovam o uso indevido das passagens no Brasil e no exterior. Isso ocorreu entre 2006 e 2008. Além de Marques, foram beneficiados outros funcionários da União Química. Um deles, Daniel Tavares, entregou a documentação à reportagem. 

Tavares foi assessor parlamentar de Thadeu. Ele diz que o deputado o escalou para ficar à disposição de Marques toda vez que o empresário desembarcasse em Brasília. Tavares se aproximou tanto de Marques que acabou trocando de emprego. Virou assessor do empresário na União Química, a quem acompanhava em audiências públicas, uma delas com o presidente Lula. No começo do ano passado, Tavares saiu brigado da empresa. Não quis dizer o porquê. 

Daniel Tavares faz mais acusações. Ele garante que participou da entrega de duas picapes importadas para o deputado Thadeu. Diz que foi uma retribuição de Fernando Marques à cota de passagens doada pelo parlamentar. Diz ainda, sem apresentar provas, que fez vários pagamentos a Thadeu a pedido de Fernando Marques. 

ÉPOCA ouviu o deputado Thadeu. Primeiro ele tentou negar a doação das passagens. Informado sobre os comprovantes, disse que, como não havia regras claras, podia fazer o que quisesse com sua cota. Sobre as picapes, negou que os veículos tivessem sido registrados em seu nome. “Mas é comum político receber carros emprestados.” Com relação ao recebimento de dinheiro, afirmou que é mentira de Tavares. Segundo ele, Fernando Marques o ajudava apenas em campanhas eleitorais. Na prestação de contas que apresentou à Justiça em 2010, Thadeu informou que recebeu R$ 406 mil de três empresas de Marques. É quase metade de todas as doações declaradas. “O Fernando me ajuda porque é meu amigo há mais de 30 anos. Mas nunca me pediu nada, e eu nunca usei o mandato para ajudar suas empresas”, afirma. 

De acordo com Daniel Tavares, a realidade é outra. Ele diz que Geraldo Thadeu se empenhou em ajudar o empresário amigo a conseguir licenças ambientais para a construção de uma fábrica de medicamentos em Brasília. Segundo ele, o deputado chegou a levar Marques a uma audiência com o então ministro da Integração Regional, Ciro Gomes, em busca de apoio: “É verdade, eu fui. Mas meu interesse foi apenas ajudar no desenvolvimento de Brasília”. Fernando Marques não respondeu aos pedidos de entrevista até o fechamento desta reportagem. 

Atualmente, o deputado Thadeu atua para modificar um projeto aprovado pelo Senado que autoriza a produção e venda de medicamentos genéricos para animais. Se tiver sucesso, a mudança vai beneficiar a Agener União Saúde Animal, divisão veterinária da União Química. Seu propósito é derrubar a exigência de um teste de resíduo. Trata-se de um exame que identifica quanto tempo o medicamento fica no tecido muscular do animal. O objetivo é evitar riscos para a saúde humana. 

Com outros deputados, Thadeu participou de uma reunião com representantes de laboratórios para articular uma estratégia de votação. Foi até o Ministério da Agricultura para defender mudança da posição do governo. Em todas as reuniões, ele e seu principal aliado nessa empreitada, o deputado César Halum (PPS-TO), reproduzem um argumento usado pelos laboratórios: esses testes já foram feitos em outros países e sua reprodução no Brasil só encareceria os produtos. Para eles, basta comprovar que o genérico veterinário é igual ao original, o que pode ser feito num teste de bioequivalência. “Quem insiste na defesa dos testes de resíduos está fazendo o jogo das multinacionais que detêm as patentes ”, afirmam, em coro, Thadeu e César Halum. 

Para a professora Silvana Gorniak, da Faculdade de Medicina Veterinária da USP, é preciso fazer todos os testes. “O problema no Brasil não é oferta de produtos, mas a falta de controle”, diz. Em novembro, o Senado decidiu incluir no projeto a exigência de teste de resíduo a pedido do governo, com base num parecer do Ministério da Agricultura. O projeto sobre os genéricos veterinários está na pauta da Câmara, com previsão para ser votado nas próximas semanas. Segundo o ministério, os testes de resíduos em medicamentos genéricos para animais que fornecem alimentos para consumo humano serão exigidos, estando previstos ou não em lei. A pasta teria competência legal para isso, e o Brasil é obrigado a fazer os testes em razão de compromissos internacionais. 

Com um pé no PPS e outro no PSD, não se sabe em que partido político Thadeu vai militar. A única certeza é sua fidelidade ao empresário Fernando Marques.

[FONTE: Revista Época]

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