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22 agosto 2011

"No Brasil, nós só mandamos prender ladrões de galinha"

O senhor propôs recentemente um movimento de apoio à faxina promovida pela presidente Dilma Rousseff na Esplanada dos Ministérios. Qual o objetivo?
Nós queremos que a presidente Dilma se sinta segura para avançar nas apurações das denúncias de corrupção contra o governo. Temos no país a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), a CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) e a ABI (Associação Brasileira de Imprensa) - grandes entidades que têm se movimentado muito nas horas importantes. E elas estão preocupadas com a situação da política brasileira. É fundamental que elas também participem, senão, não teremos condições de levar as apurações adiante com a tranquilidade necessária. O que nós queremos é evitar que, no Congresso Nacional, parlamentares pensem em impor represálias à presidente Dilma Rousseff por causa das demissões de ministros ou de funcionários do governo.

Por isso, na sua avaliação, é necessária a participação social?
Se a sociedade não se organizar, não vai acontecer nada. No Congresso, não se apura coisa nenhuma. No Executivo, menos ainda. No Judiciário, também não. Eu me lembro do movimento das Diretas Já: o povo foi para a rua e fez o que ninguém achava possível - terminar com a ditadura militar. Na Lei da Ficha Limpa, quando ninguém esperava que pudesse acontecer, quanto todos achavam que o projeto nunca iria passar, a sociedade foi para a rua, mobilizada, e fizemos o Congresso aprovar com maioria aquilo que, sem iniciativa popular, não teria acontecido. Agora que a OAB está se mobilizando, a ABI, a CNBB e os estudantes, acho que nós vamos conseguir terminar com essa história de dizer que o Brasil é o país da impunidade. Há um sentimento de que, por não ser punida, a corrupção gera cada vez mais corrupção no Brasil.

Mas o senhor vê riscos reais para o governo de Dilma Rousseff caso ela prossiga com a faxina nos ministérios?
A presidente Dilma está agindo conscientemente, com responsabilidade, com muita tranquilidade, sem atropelos. Mas tem aparecido parlamentares que pensam em represálias, no sentido de votar projetos que teriam influência negativa para o governo, principalmente neste momento de crise mundial. Da mesma forma, esses parlamentares podem paralisar os prazos, não votando outras matérias que poderiam interessar ao governo. Nós somos contra essas represálias e achamos que a cobertura que se deve dar à presidenta é para que ela continue fazendo as coisas como devem ser feitas, independentemente das ameaças. Para que isso aconteça, é importante que o povo esteja acompanhando e dando cobertura.

Por que esses parlamentares ameaçam retaliar o governo Dilma? É o temor de que também sejam atingidos pelas apurações?
Todos nós sabemos que o Brasil é tido como o país da impunidade. Às vezes, as pessoas acham que a corrupção que existe no Brasil não acontece em países importantes da América do Norte, da Europa, da Ásia. A corrupção está em todos os lugares. A diferença é que, nos países civilizados, a corrupção é punida, e muitos empresários, políticos e cidadãos de colarinho branco vão para a cadeia. No Brasil, nós só mandamos prender ladrões de galinha. Nenhum político importante, nenhum grande empresário, nenhum banqueiro vai para a cadeia em nosso país. As denúncias dão manchete, viram condenação em primeiro grau, mas depois têm o segundo e o terceiro graus, e o crime acaba prescrevendo, fica esquecido. Por isso que, agora, quando as coisas estão acontecendo, quando há interesse em se punir, muita gente começa a ficar preocupada - até com razão, cá entre nós.

Como governar nessa situação de insatisfação e medo no Congresso?
Realmente, a governabilidade é muito importante. Mas estão machucando muito o termo governabilidade, que, em essência, é um diálogo entre os partidos, entre a situação e a oposição, nos momentos em que há interesse da nação. O que não pode é deixar acontecer a corrupção para, em troca, ver aprovados os projetos do governo. A presidente vai precisar fazer um governo de diálogo com o parlamento, mas, principalmente, de diálogo com a população. À medida que adquirir o respaldo da sociedade, ela ganha firmeza para prosseguir.

Por que a presidente Dilma decidiu endurecer com os suspeitos de corrupção?
Na verdade, nós precisamos notar que nada do que foi feito até agora ocorreu por iniciativa da presidente Dilma. Os fatos foram apresentados pela imprensa e diziam respeito a feitos do governo anterior. O caso do ex-ministro Palocci foi retratado em manchetes pelos jornais. O caso do Wagner Rossi foi o irmão do líder do governo quem denunciou. Não é a Dilma que está buscando, os fatos estão aparecendo. Escândalos também apareceram nos governos anteriores. A diferença é que os governantes anteriores engavetavam e não tinham coragem de tomar providências. Dilma está demitindo. Agora, não é ela quem está agindo, quem está tirando os podres da gaveta. Ela toma as providências, mas só depois que o caso vem a público.

Mesmo assim, essa disposição de se apurar as denúncias de corrupção é incomum?
Antes, também tivemos casos de demissão. O Lula mesmo demitiu seu chefe da Casa Civil, o José Dirceu. Outras pessoas também caíram, como no governo Fernando Henrique. Agora, uma campanha no sentido de se buscar a seriedade, em que só se admite a nomeação de alguém depois da avaliação da folha corrida, é a primeira vez que eu vejo acontecer. Assim como também nunca vi um presidente remodelar totalmente um ministério envolvido em denúncias, como Dilma fez com o dos Transportes.

Essas reações da presidente Dilma vão realmente ao cerne da corrupção? Não podem ser apenas um jogo de cena?
Não creio. Com sinceridade, eu te digo que, pela primeira vez, a corrupção está sendo enfrentada de frente no nosso país. Só o fato de demitir o chefe da Casa Civil, o todo poderoso Antonio Palocci, enquanto o ex-presidente Lula, lá trás, na mesma situação, não teve coragem de demitir o então subchefe do ex-ministro José Dirceu, Waldomiro Diniz - por coisas muito mais graves -, já demonstra que Dilma está agindo com a responsabilidade de levar tudo até as últimas consequências.

Por que Dilma decidiu enfrentar a corrupção, se Lula - seu antecessor e mentor político - não o fez?
Digamos assim: os fatos chegaram ao exagero. Havia corrupção no governo Fernando Henrique, foi levando, foi deixando. Posteriormente, no governo do Lula, os casos foram crescendo, crescendo. Eu acho que, no caso de Dilma, houve imprevidência na escolha dos ministérios. Dilma foi eleita mas não estava com força total. Então foi Lula quem tomou conta da montagem do governo. E todas as escolhas que fez foram muito precipitadas, muito infelizes. A presidente Dilma teve de reagir a isso. Ela já aprendeu e creio que, daqui para frente, vai olhar com mais cuidado os nomes dos indicados.

Entre os parlamentares incomodados, já há quem defenda a volta de Lula em 2014.
Mas o próprio Lula vem insistindo que é um mal serviço falar em candidaturas a esta altura dos acontecimentos. Diz o Lula que a candidata dele é a presidente Dilma, que só não será candidata se não quiser. Não sei se ela ou ele (vai se candidatar), mas creio que é cedo para se falar sobre a matéria. O caso é que, se a Dilma for mal no governo, fica mal para ela e mal para Lula. Se for bem, fica bem para os dois. Eu acho que os dois estão no mesmo barco, então não tem como ganhar um e perder o outro. Mas é claro que um ou outro parlamentar pode imaginar que, com o Lula na Presidência da República, não vai ter tanto rigor com a corrupção. (Telmo Fadul)



[FONTE: Jornal O Tempo]

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