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19 junho 2011

A reconstrução da memória

Guardar apenas as lembranças boas, felizes. As ruins, aquelas que nos fazem recordar momentos difíceis e dolorosos, seria melhor que desaparecessem. Certamente você já se pegou imaginando como seria bom se isso fosse possível. Se depender da ciência, esse desejo está cada vez mais próximo de se tornar realidade. Numerosas pesquisas realizadas por centros de estudo espalhados pelo mundo estão comprovando que se pode, sim, alterar ou apagar as memórias negativas, permitindo que a mente só traga à tona as recordações que nos fazem bem. Além de representarem um marco na evolução do conhecimento a respeito da memória humana, as experiências abrem uma fronteira importante para a criação de tratamentos de doenças geralmente marcadas por eventos traumáticos, sofridos, como a ansiedade, o estresse pós-traumático, a síndrome do pânico e a depressão. Nesses casos, a simples lembrança do episódio pode desencadear crises e fazer com que a pessoa sinta novamente as mesmas e terríveis sensações. Evitar que essa recordação apareça – ou fazer com que ela ressurja de modo menos assustador –, seria, portanto, uma maneira de poupar a pessoa de um novo sofrimento.

O ponto de partida dessa revolução foi a constatação, nos últimos anos, de que a memória é algo vivo, maleável, sujeito a interferências. Muito distinto da ideia predominante entre os estudiosos por décadas de que a memória era como um pacote fechado, guardado no fundo de um armário e impossível de ser aberto. Com o auxílio de equipamentos como a ressonância magnética funcional, capazes de acompanhar o movimento cerebral em tempo real, diversas pesquisas registraram o vai e vem percorrido dentro do cérebro pelas informações do passado e desvendaram a ocorrência de processos fascinantes.

Um deles acaba de ser anunciado. Na última semana, cientistas da Universidade da Califórnia, de Berkeley, nos Estados Unidos, identificaram como são guardadas as lembranças ruins – aquelas pontuadas pelo medo, angústia, estresse. Os pesquisadores descobriram que esse tipo de recordação é tão forte que estimula a criação de uma rede de neurônios própria, em que ficam marcadas com um status especial (leia mais no quadro abaixo). “Em geral, nos lembramos mais das experiências ruins do que das boas”, diz Daniela Kaufer, uma das responsáveis pelo trabalho. “Nosso estudo ajuda a explicar por que isso acontece.” Os cientistas acreditam que a designação de um compartimento específico para esse gênero de recordação foi uma estratégia criada nos tempos em que a humanidade enfrentava animais e intempéries climáticas para sobreviver. Os novos neurônios auxiliavam a identificar e a reagir mais rapidamente às ameaças.

Portanto, trata-se aí de uma arma de defesa. O problema é quando as más lembranças – hoje resultantes de circunstâncias como a violência, o estresse cotidiano, a pressão no trabalho –, em vez de ajudar, mantêm o indivíduo preso ao passado e à dor. “É preciso fazer com que a vivência afetiva ruim se torne uma lembrança aceitável”, afirma a psiquiatra Rita Jardim, do Rio de Janeiro. As informações levantadas pela ciência irão ajudar a fechar esse ciclo. Descobriu-se que é possível interferir no conteúdo da memória, nas sensações nela impressas ou até mesmo apagá-las principalmente em um momento determinado, batizado de recall ou recuperação. Ele se dá quando a recordação é incentivada a subir à superfície, abrindo o que os pesquisadores chamam de janela de oportunidade.

Estudos importantes, conduzidos na New York University, nos Estados Unidos, deixaram evidente que a manipulação é de fato eficaz quando aplicada logo após a lembrança ser resgatada. A primeira constatação veio com trabalhos em ratos. Os animais foram condicionados a ter medo (ouviam um som e recebiam choques). Um dia depois, foram novamente expostos à experiência, o que reativou o pânico. Depois, foram submetidos a um plano conhecido como treino de extinção: o som foi tocado, mas não houve choque. Verificou-se que o medo foi extinto somente nas cobaias que passaram pela reprogramação até seis horas depois de terem tido suas memórias reativadas – ou seja, após a abertura da janela de oportunidade.

O experimento foi posteriormente repetido em humanos. Novamente, o medo foi extinto apenas nos voluntários que passaram pelo programa de extinção até seis horas após a memória ser recuperada. “O tempo é importante para interferir nas lembranças associadas ao medo”, disse à ISTOÉ Elizabeth Phelps, coordenadora do grupo envolvido nas pesquisas. Aqueles que receberam o treinamento depois das seis horas ou que foram submetidos ao tratamento, mas sem ter a lembrança reativada, permaneceram presos ao medo. Um ano depois, expostos novamente à situação que desencadeou o pânico, aqueles que foram auxiliados dentro do tempo correto manifestaram respostas ao medo significativamente mais brandas dos que os outros.

Os recursos em estudo para apagar as memórias prejudiciais são variados. Um deles ancora-se em saídas não medicamentosas, como o treinamento usado pelos cientistas da New York University. Boa parte, porém, quer usar remédios ou as próprias substâncias cerebrais. O grupo da Universidade da Califórnia em Berkeley, por exemplo, entende que a formulação de algum instrumento capaz de impedir o nascimento de neurônios associados ao medo pode ser uma boa opção. “Novos tratamentos podem atuar sobre essas células, reduzindo a intensidade da memória ruim”, disse à ISTOÉ Liz Kirby, líder do trabalho.

Nessa linha de trabalho, uma das alternativas mais concretas foi apresentada recentemente por pesquisadores da Universidade de Montreal, no Canadá. Eles demonstraram – em teste com voluntários – que o uso do remédio metirapona ajuda o cérebro a apagar a parte ruim das recordações. A droga havia sido usada para o tratamento da síndrome de Cushing, doença causada pela elevação do nível de cortisol, um dos hormônios do estresse. O que se descobriu é que esse mesmo efeito – de controle do cortisol – pode evitar o registro de lembranças que não queremos guardar. “Reduzir os índices do hormônio logo após o evento traumático pode diminuir seu registro”, explicou à ISTOÉ Marie-France Marin, uma das pesquisadoras envolvidas no estudo.

Trabalhando em conjunto, cientistas da Universidade da Califórnia e de Muenster, na Alemanha, descobriram outro alvo: uma proteína chamada neuropeptideo S, importante para a formação de lembranças mais fortes. “Se sua ação for impedida, as memórias enfraquecem rapidamente”, disse à ISTOÉ Rainer Reinscheid, professor de farmacologia da universidade americana e envolvido na pesquisa. “Neste estado, elas podem ser substituídas por outras, neutras.” Nos cálculos do pesquisador, dentro de poucos anos será possível testar um remédio que atue sobre esse sistema.

Outra equipe internacional, integrada por americanos e israelenses, investiga como a atuação sobre uma enzima (a PKMzeta) também pode ajudar. “Observamos que inibindo essa substância, mesmo que por poucas horas, se consegue apagar velhas memórias”, explicou à ISTOÉ Todd Sacktor, da SUNY Downstate Medical Center, em Nova York, participante do estudo.

Existem outros trabalhos com o mesmo objetivo sendo feitos neste momento, focados em diferentes substâncias. A intervenção sobre o conteúdo da memória, porém, suscita discussão entre a comunidade científica. Os pontos positivos são evidentes, mas eventuais impactos negativos despertam inquietação. “Só com os resultados mais definitivos teremos uma ideia mais clara das possíveis consequências, como a perda de lembranças úteis ou a interferência no registro de outros eventos”, diz o psiquiatra Antônio Nardi, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e membro da Associação Brasileira de Psiquiatria. Temor semelhante é manifestado pelo cientista Ivan Izquierdo, da PUC do Rio Grande do Sul, e considerado um dos mais conceituados na área de memória do Brasil. “Há o risco de intervenção em outras lembranças”, afirma. “Por exemplo, posso ter uma recordação ruim relacionada à minha mãe, mas tentar apagá-la pode afetar outra também associada a ela, mas boa”, ressalva.

O debate só serve para enriquecer ainda mais uma área de estudo cada vez mais prolífica. Basta conhecer outra boa safra de novidades, desta vez voltadas para melhorar a aquisição e a manutenção de boa memória. A última deste gênero foi anunciada há três semanas. Pesquisadores da Universidade de Melbourne, na Austrália, apresentaram as conclusões de um trabalho que atestou a eficácia da testosterona para aprimorar a memória de mulheres na pós-menopausa. Durante seis meses, participantes receberam uma dose diária do hormônio, aplicado sobre a pele, em forma de spray, enquanto outras não tiveram qualquer tipo de tratamento. “Aquelas nas quais os níveis de testosterona foram elevados saíram-se melhor nos testes de memória”, contou à ISTOÉ Sonia Davinson, coordenadora da pesquisa. “Estamos agora conduzindo outro experimento, maior, utilizando placebo em um grupo e o hormônio em outro”, adiantou.

Duas outras experiências confirmam que o registro das informações também acontece em momentos nos quais não estamos lá muito preocupados com isso. A primeira provou que uma boa forma de gravar o que acabou de ser ensinado é fazer uma pausa. Estava em uma palestra sobre um assunto difícil? Saia, sente-se, relaxe, respire um pouco, orientam os cientistas. Eles chamam esses minutos de “descanso ativo”. Nesse período, foi observado que o cérebro realiza com propriedade a transferência dos dados que acabaram de ser captados para o hipocampo, uma das estruturas-chave na consolidação da memória. “Mas é bom fazer uma pausa mesmo. Ficar quieto”, aconselha Paul Sanberg, diretor do Centro de Envelhecimento e Recuperação Cerebral da Universidade do Sul da Flórida, nos Estados Unidos. “Usar o tempo para fazer outra tarefa pode prejudicar o trabalho do cérebro.”

O outro experimento comprovou que é possível memorizar quando se está dormindo. O trabalho foi feito na Universidade Northwestern (EUA). Voluntários gravaram a localização correta de 50 imagens dispostas em uma tela de computador. Cada objeto foi mostrado acompanhado de um som associado (gato e o miado do gato). Depois, eles partiram para uma sala calma e escura e dormiram. Suas ondas cerebrais foram monitoradas e, quando os jovens entraram na fase mais profunda do sono, os cientistas começaram a tocar, para cada um, 25 dos sons que haviam ouvido antes. O volume era muito baixo, um pouco superior do que o de um sussurro. Por isso, quando acordaram, os participantes não sabiam que tinham escutado algo. Mesmo assim, lembraram-se melhor das posições dos objetos cujos sons tinham sido executados enquanto dormiam.

No que diz respeito aos benefícios dos alimentos, há boas sugestões. Uma delas é aumentar o consumo de opções ricas em magnésio, como nozes, vegetais folhosos e cereais integrais. Uma pesquisa realizada na Universidade de Pequim, na China, revelou que o mineral aumenta a comunicação entre os neurônios, facilitando o registro e o armazenamento de informações. “Descobrimos que o magnésio é efetivo para aprimorar o aprendizado e a memória”, contou à ISTOÉ Guosong Liu, da instituição chinesa. Apresentam o mesmo efeito alimentos com alta concentração de luteolina. Entre eles, o pimentão, o aipo, o alecrim, a hortelã e a cenoura. “Eles ajudam a evitar a inflamação dos neurônios”, explica a nutricionista Elaine de Pádua, de São Paulo.

Um dos achados joga luz sobre a importância do afeto também quando o assunto é memória. Pesquisadores da Tufts University (EUA) desenvolveram uma experiência inusitada e obtiveram um resultado surpreendente. Eles queriam saber o quanto um ambiente acolhedor, estimulante poderia ser um antídoto contra problemas de memorização. Para isso, criaram ratos com um defeito genético que provoca deficiência na memória. Mas as cobaias que foram colocadas em um local com objetos estimulantes, de atmosfera calma, e onde podiam interagir sem problemas umas com as outras superaram o problema. Meses depois, esses animais tiveram filhotes com a mesma mutação genética. No entanto, a cria não manifestou limitações para se recordar – nem precisou ficar em ambientes reconfortantes. “Demonstramos que um cotidiano rico, afetuoso tem o poder adicional de aprimorar a memória, e não apenas do indivíduo, mas também de seus descendentes”, disse o neurocientista Dean Harley, responsável pelo experimento.



[FONTE: Revista IstoÉ]

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