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11 junho 2011

No escurinho da internet

Na década de 1970, o psicólogo americano Kenneth Gergen queria investigar o que as pessoas seriam capazes de fazer protegidas pelo total anonimato. Convidou grupos de oito universitários – cada um com quatro homens e quatro mulheres – para passar uma hora dentro de uma sala completamente escura. Eles não veriam um ao outro nem antes nem depois do experimento e suas identidades jamais seriam reveladas. O que aconteceu na sala escura? Noventa por cento conseguiram tocar outros companheiros. Metade abraçou alguém e 30% trocaram beijos. Oitenta por cento disseram ter se excitado e houve até quem oferecesse dinheiro aos pesquisadores para participar de uma nova rodada da pesquisa. O experimento, que mostrou indícios do caráter assanhado da natureza humana, está em curso novamente – 30 anos depois, 24 horas por dia, em todos os países do mundo. A internet, que conecta cerca de 2 bilhões de pessoas, tornou-se a maior sala escura de que já se teve notícia.

Uma dupla de pesquisadores resolveu espiar o que acontece com a multidão virtual que considera ter sua identidade protegida por um número IP, a sequência de algarismos que identifica cada computador conectado à rede. No mês passado, o neurocientista americano Ogi Ogas e seu colega indiano Sai Gaddam lançaram nos Estados Unidos o livro A billion wicked thoughts” (algo como Um bilhão de pensamentos maliciosos), que compila os resultados dessa curiosa bisbilhotice. Eles analisaram 400 milhões de consultas feitas por internautas em sites de busca na internet e descobriram algumas coisas intrigantes. Os homens, dizem eles, são atraídos em primeiro lugar pela anatomia de mulheres jovens, mas também gostam de ver sexo com veteranas de 60 anos ou mais. Eles se interessam pelo órgão sexual dos outros homens (quanto maior, mais eles querem ver) e se excitam (isso mesmo, se excitam) com a possibilidade de ser traídos. Ao menos quando se trata de ficção. As mulheres, dizem os pesquisadores, não fazem tantas buscas. Elas vão direto a sites que contêm romances picantes. “Antes da pesquisa, a ciência simplesmente não tinha ideia de quais interesses sexuais eram comuns e quais eram raros”, diz Ogas.

Os autores afirmam ter feito o maior levantamento sobre o comportamento sexual humano desde a publicação dos famosos relatórios Kinsey. Na década de 1930, inconformado com o moralismo que dominava o estudo sobre o assunto, o zoólogo americano Alfred Kinsey se encarregou de esmiuçar a sexualidade dos americanos. Munido de um questionário detalhado (eram mais de 350 perguntas), o pesquisador e sua equipe entrevistaram 18 mil pessoas. Os livros com as conclusões foram publicados nas décadas de 1940 e 1950 e revolucionaram o estudo do sexo – e o que as pessoas pensavam sobre o assunto. Graças às pesquisas de Kinsey, descobriu-se que a homossexualidade não era tão rara quanto se pensava – 30% s dos homens confessaram ter tido alguma experiência do gênero – e que as mulheres buscavam prazer tanto quanto os homens (metade afirmou se masturbar, algo impensável naquele tempo). Ogas diz ter ido além de Kinsey. “A pesquisa dele era limitada porque só ouviu americanos brancos, de classe média, do nordeste do país”, afirma Ogas. Ele analisou termos procurados em inglês, hindi, japonês, português, russo e italiano.

O levantamento traz achados curiosos. Cerca de 90% das buscas se concentram nos temas que ocupam as primeiras cinco posições do ranking, fato surpreendente em meio a oferta e variedade oferecidas pela internet. Nos 2,5 milhões de sites devotados ao sexo, é possível encontrar de tudo. Para explicar o número reduzido de preferências, Ogas e Gaddam usam as descobertas da neurociência, estudos sobre o comportamento animal e premissas da psicologia evolucionista, teoria que parte do princípio de que as características humanas foram selecionadas ao longo da evolução por facilitar a reprodução da espécie. É assim que eles explicam a atração masculina pelas mulheres jovens. Ela teria sido cunhada no cérebro dos homens pela necessidade de encontrar mulheres férteis para perpetuar seus genes. O problema de usar essa teoria é que os autores reduzem a complexidade do comportamento humano a meia dúzia de atitudes congeladas no tempo, como se, desde as cavernas, homens e mulheres não tivessem mudado. “Temos de considerar elementos como a curiosidade natural do ser humano e o contexto social”, diz o sexólogo Théo Lerner. “Na sociedade de hoje, que escancarou o sexo e a nudez, é normal a busca por novos estímulos.”

Os pesquisadores não estão seguros da relevância da pesquisa de Ogas e Gaddam. Eles duvidam, por exemplo, que a internet seja boa ferramenta para esse tipo de investigação. Por um lado, ela permite descobrir o que as pessoas fazem sem perguntar a elas. “Numa entrevista cara a cara, as pessoas ficam envergonhadas e podem não ser honestas”, diz a psicóloga americana Catherine Salmon, pesquisadora da Universidade de Redlands. Por outro lado, o anonimato proporcionado pela rede pode falsificar os resultados de outra forma, estimulando os internautas a soltar a imaginação. “As pessoas criam personagens para experimentar comportamentos que não teriam na vida real”, diz o psicoterapeuta sexual Oswaldo Rodrigues Junior, diretor do Instituto Paulista de Sexualidade. Quer dizer: a sexualidade na internet pode, em alguns casos, ter pouco a ver com a sexualidade real.

A abrangência das conclusões de Ogas e Gaddam é outro ponto de controvérsia. Eles usaram dados de um buscador chamado Dogpile, que não é o favorito dos internautas na hora de fazer buscas. “Enquanto 150 milhões de pessoas usam o Google e 90 milhões recorrem ao Bing, pouco mais de 3 milhões empregam o Dogpile em suas buscas”, escreveu o psicólogo americano John Grohol em um artigo em que critica o livro. “Isso é menos do 0,05% dos usuários de mecanismos de busca.” A amostra não permitiria extrapolar para o restante dos internautas os comportamentos detectados pela pesquisa. A pesquisa tampouco informa qual é o porcentual de usuários da internet que procura pornografia – e com que frequência.

Por polêmico que seja o levantamento, Ogas e Gaddam merecem o crédito de apresentar teorias científicas de maneira inusitada para leigos. Ogas tem experiências no assunto. Em 2006, ele usou seus conhecimentos de neurociência para ganhar US$ 500 mil no programa Quem quer ser um milionário, exibido pela televisão americana. No show, os participantes têm de responder a perguntas sobre atualidades. Ogas aplicou técnicas de memorização para reavivar as informações que guardava sobre os assuntos perguntados. Com isso, quase ganhou o US$ 1 milhão. Na última questão, hesitou entre duas alternativas e resolveu desistir para garantir pelo menos US$ 500 mil. Quando o assunto é sexo, porém, quase chegar lá não vale muita coisa.

1 comentários:

Poxa, gostei muito.

O que eu achei mais positivo foi a constatação de que "O problema de usar essa teoria é que os autores reduzem a complexidade do comportamento humano a meia dúzia de atitudes congeladas no tempo, como se, desde as cavernas, homens e mulheres não tivessem mudado". Isto de fato recorta de maneira errada qualquer pesquisa séria. Achei que esse foi o ponto mais importante da matéria.

Mas acho que eles sofreram do mesmo mal do Kinsey. Até onde eu sei, as acusações são de que o Kinsey fez suas pesquisas, em sua maioria, com presidiários, o que também gera um complicador para o resultado final de qualquer pesquisa. Os pesquisadores erram de manira semelhante quando escolhem fazer a pesquisa pelo Dogpile, pois a própria reportagem mostra que não dá para se fazer algo sério e aprofundado desconsiderando que o universo de buscas não foi verificado: o google.

Mesmo assim, muito interessante.

Abraços.

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