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06 junho 2011

CASO PALOCCI - Uma lembrança ao Procurador Geral da República: "Ne Sutor Ultra Crepidam"

Escrevi aqui no começo da crise e reitero: ninguém esperava que o procurador-geral da República escrevesse algo muito diferente do que escreveu. Até porque ele já tinha dado essa opinião antes de ter em mãos as “provas” apresentadas por Palocci, de maneira, entendo eu, imprudente.

Não sei, não… O procurador-geral, Roberto Gurgel, parece ter operado num “timing” mais político do que seria aceitável. Informações aqui e ali davam conta de que tornaria público seu parecer na quarta-feira — outros ainda informavam que não havia prazo. Mas a temperatura da crise se elevou bastante no fim de semana e nesta segunda. A Força Sindical cobrou publicamente que Palocci se afastasse. A senadora Ana Amélia (PP-RS), de um partido da base, assinou o requerimento em favor de uma CPI. Até o PC do B escreveu um texto em seu site cobrando explicações.

E eis que o parecer do procurador — que seria tornado público a partir de quarta — sai na segunda mesmo, a tempo ainda de ser noticiado no Jornal Nacional e, quem sabe?, de ser manchete nos jornais de amanhã. O texto de Gurgel é complicado.

Nega, peremptoriamente, que exista indício de crime, mas deixa aberta a porta para a possibilidade de improbidade administrativa. Certo! E isso, ele sugere, não é com ele. Mas Gurgel avança atém do razoável.

Na parte final do seu parecer, escreve:
“A enorme repercussão do caso talvez recomendasse, como caminho mais simpático para o Ministério Público que, a despeito da insuficiência absoluta de indícios, promovesse a continuidade da investigação, porque ‘procurando, vai achar’, porque ‘certamente há algo de errado’ e outras trivialidades. A Constituição e as graves responsabilidades da instituição e do seu cargo não autorizam, porém, o Procurador-Geral da República a ceder a tais bordões”.

Calma lá, senhor procurador!
Ninguém, a imprensa muito menos, cobra que Gurgel atenda ao clamor público. A observação do procurador é desnecessariamente defensiva. Se o Ministério Público tem um “outro” como adversário ou oponente, este “outro” não está nas redações. Se alguém andou flertando, por exemplo, com a Lei da Mordaça, não foi o jornalismo. Ao contrário: com freqüência — e, às vezes, de maneira até imprudente —, procuradores e jornalistas atuam em parceria estreita demais.

Parece-me que Gurgel resolveu ser uma espécie de Catão do jornalismo e do processo político, tarefas que, francamente não lhe cabem. O procurador não viu indício de crime? Muito bem! Que diga isso lá. Mas não venha ser uma espécie de ombudsman da opinião pública. O caso remete ao pintor grego Apeles, que corrigiu o detalhe de uma sandália em um quadro, cedendo à observação de um sapateiro. Animado, o homem decidiu criticar outros aspectos da obra. E Apeles lhe teria dito, então — em grego, certamente, mas a frase ganhou fama em Latim: “Ne sutor ultra crepidam”. Ou: “Não vá o sapateiro além da sandália”.

Não vá o procurador além da sandália.

PS - Ah, sim: a opinião do procurador-geral não torna explicado o inexplicado e o inexplicável.

Por Reinaldo Azevedo

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