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29 maio 2011

Um cemitério dentro do museu - a polêmica do memorial de 11/09

No momento em que a tragédia de 11 de setembro completa 10 anos e que o principal responsável pelo atentado terrorista que matou 2.752 pessoas só em Nova York é finalmente exterminado, surge um novo problema. Trata-se da construção do Museu e Memorial Nacional 11 de Setembro, no Marco Zero da cidade, que abrigará os restos humanos dos mortos nos ataques. O monumento está mexendo com os nervos de muitas famílias americanas. “Eu me oponho 100% ao projeto do museu. Eu acho que é antiético, imoral e insensível”, disse ao site de VEJA Sally Regenhard, mãe de um bombeiro de 28 anos que morreu nos atentados e porta-voz das famílias descontentes com o projeto.

Organizado por uma associação que descreve seus objetivos como não-lucrativos, o museu vai expor pedaços e objetos que restaram das torres do World Trade Center com a proposta de educar os visitantes sobre o pior atentado terrorista da história dos Estados Unidos. A primeira parte do projeto será inaugurada no aniversário de 10 anos da tragédia. Já o memorial, localizado dentro do museu - porém em uma área separada e restrita - vai homenagear as vítimas. O espaço será dedicado a mostrar quem eram essas pessoas com fotografias, lembranças, objetos pessoais e mensagens de parentes. O objetivo é explorar a dimensão da perda humana nos ataques.

Plano - O museu e o memorial ocuparão metade da área do Marco Zero, que tem 65.000 metros quadrados (cerca de oito campos de futebol). O projeto é composto basicamente por um pavilhão de aço. Ao seu redor, decorarão o ambiente duas piscinas, preenchidas apenas com cascatas de água, exatamente no local onde ficavam as duas torres. Dentro do pavilhão, haverá um auditório, um café e sete andares subterrâneos, que fazem parte da construção original do World Trade Center. No subsolo, ficará o memorial com os restos mortais das vítimas.

É neste sombrio legado dos ataques terroristas que está a grande polêmica do monumento. Considerando que os restos mortais de 1.123 vítimas, 41% do total, ainda não foram identificados, milhares de americanos permanecem angustiados por não terem como enterrar seus entes queridos. Ao mesmo tempo, 9.041 fragmentos - em geral partículas de ossos ou tecidos do corpo humano - ainda estão sendo examinados pelos legistas de Nova York.

Discórdia - A ideia é que os restos mortais não possam ser vistos ou acessados pelo público em geral, somente pelas famílias das vítimas para contemplação e luto. Eles ficariam, porém, próximos às outras exibições, levando alguns familiares a se oporem ao projeto. Eles alegam que restos humanos não são "objetos" que devem ser expostos ou ficar próximos a exibições.

Para Sally, mesmo que os restos não estejam visíveis ao público, o fato de eles estarem dentro de um museu faz deles uma "mostra". Outra questão considerada um desrespeito por ela é a localização do café e da loja de suvenires, na entrada do pavilhão, em relação ao memorial, no “porão”. “Eles estão usando os restos mortais do meu filho para promover um negócio e eu sou contrária a isso”, diz.

O maior erro para os oponentes do projeto é, portanto, embaralhar o “sagrado” com o “comercial”. Algumas famílias pediram inclusive a construção de uma capela sem denominação religiosa, o que foi negado pela organização do museu. “Não há espaço para Deus no Marco Zero”, critica Sally, temendo que o monumento leve as famílias das vítimas a um estresse pós-traumático.

Trauma - Para o professor de psiquiatria da Universidade de Michigan especializado em estresse pós-traumático e vítimas de terrorismo, Frank Ochberg, sentir-se machucado nesse tipo de situação é totalmente legítimo. “Uma pessoa que vai a um lugar onde seu familiar morreu e sente que seu luto foi comercializado pode ter sintomas de estresse pós-traumático ou apenas se sentir muito ofendida”, afirma.

Ochberg não é contrário à ideia de construir um memorial. Contudo, admite que é muito difícil fazer momumentos de homenagem às tragédias em massa porque as pessoas têm sensos muito diferentes do que é certo e errado na hora do luto. Além disso, esse tipo de “ferida”, para os familiares das vítimas, é mais difícil de curar, já que ela sempre será lembrada na história. “Se você é a mãe de uma criança que foi assassinada, tem uma chance de se curar, mas se é a mãe de alguém que morreu no World Trade Center, você é sempre lembrado do que aconteceu”.

Contraponto - Já Paul Wallier, um advogado americano que perdeu sua irmã Margaret nos atentados de 11 de setembro, está completamente de acordo com a proposta do memorial. “Eu considero o marco zero um local adequado para sepultamentos. Foi ali onde minha irmã morreu e o seu corpo foi queimado. Então toda vez que eu vou até lá, acredite se quiser, eu sinto como se estivesse em um cemitério”, conta. A família Wallier foi uma das que se dispuseram a transferir os restos mortais de seus familiares para o interior do museu, apesar de já terem realizado um enterro adequado em um cemitério católico.

O objetivo do projeto, obviamente, não é desrespeitar a memória das vítimas, e sim homenageá-las. Mas, ao tentar balancear objetivos educacionais e comerciais com a honra aos mortos, a organização do monumento arranjou um problema para si. “A maioria dos museus americanos não é confrontada com as questões que estamos lidando aqui”, disse a diretora do museu, Alice Greenwald, ao jornal americano The New York Times. “Contudo, o único lugar que poderia abrigar esses restos mortais é justamente o World Trade Center”.

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