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12 setembro 2010

O desmentido que confirma a reportagem. Ou: revista não tem como obrigar alguém a falar, mas o governo tem como forçar o silêncio

por Reinaldo Azevedo

[FONTE: Blog Reinaldo Azevedo]

Quem leu a íntegra da reportagem da revista VEJA percebeu que o testemunho do empresário Fábio Baracat é apenas uma das evidências de que Israel Guerra, filho de Erenice Guerra, ministra da Casa Civil e braço-direito de Dilma, faz o que o dicionário da política define como lobby. Há muitas outras. O testemunho de Fábio está gravado, e não há na reportagem uma só fala atribuída a ele que não tenha sido dita à reportagem de livre e espontânea vontade. Pensemos um pouquinho: DE QUAIS INSTRUMENTOS DISPÕE A VEJA PARA OBRIGAR ALGUÉM A DIZER O QUE NÃO QUER? Pensemos mais um pouco: DISPORÁ O GOVERNO DE INSTRUMENTOS PARA LEVAR ALGUÉM A NEGAR O QUE DISSERA ANTES? Ao responder as duas perguntas, leitor, uma vereda se abre em seu juízo. Mas isso não é o tudo.

A estranha nota de Fábio Baracat está publicada na íntegra num post de ontem. Há ali negativas e afirmativas que são absolutamente irrelevantes para referendar ou negar a reportagem porque tratam de assuntos diversos. Puro diversionismo! O trecho que interessa é este, prestem bem atenção:
Durante o período em que atuei na defesa dos interesses comerciais da MTA, conheci Israel Guerra, como profissional que atuava na organização da documentação da empresa para participar de licitações, cuja remuneração previa percentual sobre eventual êxito, o qual repita-se, não era garantido e como já esclarecido

Então basta! Baracat, que decidiu fazer de conta que negava a reportagem, não é besta nem nada e tenta conciliar o testemunho gravado com um desmentido arranjado na última hora. Conheceu o filho da ministra “como profissional que atuava na organização da documentação da empresa para participar de licitações, cuja remuneração previa percentual sobre eventual êxito”. É o que disse VEJA, não é mesmo? A diferença é que a revista demonstrou que a atuação de Israel foi bem-sucedida. Mas esperem: então a ministra Erenice Guerra, a figura mais poderosa do governo, tem um filho que atua na facilitação de concessão de benefícios públicos a empresas privadas? Isso, por si mesmo, é uma imoralidade!

Atentemos para outro trecho de sua nota:
“Destaco também que não tenho qualquer relacionamento pessoal ou comercial com a Ministra Erenice Guerra, embora tivesse tido de fato a conhecido, jamais tratei de qualquer negócio privado ou assuntos políticos com ela.”

Por que um empresário que negocia benefícios públicos para uma empresa contrata como lobista o filho da ministra? E que circunstâncias levam este mesmo senhor a conhecer a mãe do rapaz? A propósito, informa revista:
“Os dois levaram o empresário para o apartamento funcional onde Erenice morava até março deste ano. Para entrar, Baracat teve de deixar do lado de fora celulares, relógio, canetas - qualquer aparelho que pudesse gravar o encontro. Erenice foi amável, abriu um vinho. “Ela conversou sobre amenidades e assuntos do governo.”
A rigor, não há diferença entre a sua nota e o que informa a revista. Nos encontros, Erenice realmente tratava de amenidades. Só uma vez, revelou Baracat, ela falou sobre “saldar compromissos políticos”.

O objetivo da nota, SEM DESMENTIR OS FATOS, é um só: engrossar a acusação do PT de que tudo não passa de uma questão eleitoral. Então façamos uma síntese para que fique mais claro:
- o filho da ministra mais poderosa do governo e braço-direito da candidata à Presidência que lidera as pesquisas tem uma empresa de lobby;
- esta empresa de lobby faz a intermediação de recursos públicos, sobre os quais a mãe do lobista tem influência, para empresas privadas;
- um empresário confessa que contratou os serviços do rapaz e que ambos foram bem-sucedidos: um conseguiu a grana que queria; o outro conseguiu a comissão;
- este mesmo empresário confessa que o rapaz dizia falar com autorização da mãe — a “doutora” — e é levado à presença da toda-poderosa.

Muito bem. Dado isso tudo, o que deve fazer uma publicação que se dedica ao jornalismo, não à campanha eleitoral? Segundo o PT e os petistas, deve cuidar de outros assuntos; tratar, quem sabe?, de substantivos celestes, omitindo a verdade do leitor para que ele não se deixe influenciar como eleitor. Querem saber? Podem botar o burro na sombra. Não será assim — em período eleitoral ou não. Uma das funções do jornalismo é vigiar o poder segundo os parâmetros da Constituição, das leis e do decoro público. E assim será!

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