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04 maio 2009

Todas as acusações do casal Zoghbi

FONTE: Revista Época


Na noite da quinta-feira 23, ÉPOCA manteve duas conversas com o casal João Carlos e Denise Zoghbi na mansão em que eles moram no Lago Sul, área mais nobre de Brasília. No primeiro encontro, a revista mostrou ao casal o resultado de três meses de apuração sobre as empresas de fachada em nome da ex-babá de João Carlos, Maria Izabel Gomes. A babá é uma senhora de 83 anos que não tinha renda até 2006. ÉPOCA mostrou que a família Zoghbi usou o nome de Maria Izabel para ocultar quantias milionárias recebidas de bancos que tinham autorização para fazer operações de empréstimos consignados com os funcionários do Senado. Diante das evidências, João Carlos e Denise confirmaram a história. No primeiro momento, atribuíram a fraude aos filhos, demitidos do Senado após o Supremo Tribunal Federal vetar o nepotismo. No primeiro encontro, o casal Zoghbi parecia desesperado. Repetiam que a divulgação da história da babá acabaria com eles.

Durante a conversa, a reportagem sugeriu que, se os Zoghbis revelassem um escândalo ainda maior, com potencial para ser capa da revista, o caso da babá não seria o destaque principal da edição. Meia hora após o fim da primeira conversa, João Carlos ligou para o repórter Andrei Meireles e pediu um novo encontro. De volta à casa dos Zoghbis, ÉPOCA recebeu propostas de barganha. Denise ofereceu um carro para a reportagem não ser publicada (ÉPOCA apurou depois que se tratava de um Mercedes-Benz). Diante da recusa, passaram a oferecer denúncias sobre supostos esquemas de corrupção em todas as grandes compras, licitações e contratações no Senado.

João Carlos e Denise afirmaram que há corrupção nas contratações do Sistema de Processamento de Dados (Prodasen), na comunicação social, no transporte, na vigilância e no serviço de segurança. Ao falar da área de taquigrafia, são mais específicos: “A taquigrafia é um escândalo. O serviço público tem o órgão dele de taquigrafia e contrata uma empresa para taquigrafar e fazer o mesmo serviço”, diz ela.

Segundo o casal, a quadrilha que opera todos os negócios no Senado tem um chefe. Trata-se, segundo eles, de Agaciel Maia, que foi diretor-geral do Senado por 14 anos. Agaciel deixou o cargo há dois meses, depois da denúncia de que havia registrado uma mansão sua em nome do deputado federal João Maia (PR-RN), seu irmão. “Esses anos todos, o Senado tem dono. Um único dono”, diz Denise, sobre Agaciel. “Ele é sócio de todas as empresas terceirizadas (que têm contrato com o Senado)”.

Agaciel Maia nega as acusações e atribui as denúncias de Zoghbi a uma antiga rivalidade. “Ele (João Carlos) sempre teve diferenças comigo. Sempre sonhou em ser diretor-geral”, diz. Agaciel afirma que nem teria como manipular os milionários contratos com empresas terceirizadas que fornecem mão de obra ao Senado: “A comissão de licitação é formada por 13 integrantes de diversas áreas, que são nomeados pelo presidente do Senado. Não havia como eu interferir”. Agaciel é investigado pelo Ministério Público e pela Polícia Federal por suspeita de fraude em licitações. “Já me viraram do avesso e não encontraram nada. Nem vão encontrar”, diz.

Na conversa com ÉPOCA, em momento algum o casal Zoghbi pediu reserva sobre as revelações que estava fazendo. A partir da segunda entrevista, eles deixaram de dizer que o uso da babá como laranja havia sido um negócio dos filhos. João Carlos passou a admitir que era a ele que a história da babá comprometia.

O casal Zoghbi fica cauteloso quando a conversa evolui para nomes de senadores. Quem são os parlamentares que bancam e se beneficiam das supostas operações corruptas de Agaciel? Os Zoghbis desconversam. O limite do casal é a insinuação do envolvimento dos senadores Romeu Tuma (PTB-SP) e Efraim Morais (DEM-PB) com Agaciel. Nada falam sobre os padrinhos políticos deles próprios – e também de Agaciel –, como José Sarney (PMDB-AP) e Renan Calheiros (PMDB-AL) e o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão.

Na semana passada, a maior especulação nos principais gabinetes do Senado era sobre as possíveis reações de Denise. “Se essa mulher contar o que sabe, implode a cúpula do Senado”, diz um senador. Numa semana em que se esperava que o assunto predominante nas conversas no Senado fosse a doença da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, Denise roubou a cena. Ela e o marido começaram a falar. Eis os principais trechos do que eles disseram até agora.


O dono do Senado

João Carlos Zoghbi – Mas por que o João Carlos nisso aí? Eu, sem ser ordenador de despesas, poxa vida... O diretor-geral (Agaciel Maia) sim, que vocês já abriram coisa lá. Será que não dá para trabalhar em cima disso, não? Ele, sim, como ordenador de despesas, com a caneta na mão, decide. Eu?

Denise Zoghbi – Por que não vai em cima de quem tem a caneta? Esses anos todos o Senado tem um dono. Um único dono. Não acha que está no endereço errado?

ÉPOCA – Não. Pode até ter um (caso) mais interessante. Mas preciso de coisa para isso. Não tenho mais coisa do Agaciel. Sei que ele está de diretor escondido, despachando no 9º andar, despachando naquela sala que foi da mulher dele.

Denise – Quantas terceirizadas há no Senado? Verifique quantas? Quanto dá por mês?

ÉPOCA – Como é isso?

João Carlos – O mapa da mina está em cima...

Denise – Mas vai publicar o nosso?

ÉPOCA – Mas eu quero o mapa da mina inteiro.

Denise – O caso é o seguinte: nós não temos dinheiro para oferecer para você.

ÉPOCA – Dinheiro? Como assim? Não estou entendendo.

João Carlos – Nós somos quebrados, porra.

Denise – Esta reportagem vai acabar conosco, o João vai ser demitido. O que eu posso fazer? Dinheiro? Se eu te der o meu carro, você não publica?

ÉPOCA – Denise, eu não sou corrupto. Você está me agredindo.

Denise – Eu não estou querendo te agredir. Eu estou dizendo que nós não temos como te pedir... Não publica isso porque você vai acabar com a nossa vida (chorando). Vai acabar com a vida dos nossos filhos.

João Carlos – Uma humilhação, porra.

ÉPOCA – Essa história está apurada. Deveriam ter pensado na hora que pegaram uma senhora, que chamam de “mãe preta”, e colocado como laranja numa empresa. Três empresas. Não pensaram nisso na hora? Essa mulher vai depor na Polícia Federal.

Denise – Não pensamos. Mas vai publicar isso?

ÉPOCA – É o meu trabalho.



O patrimônio de Agaciel

ÉPOCA – Como funcionava o esquema (do Agaciel) lá dentro?

Denise – Ali, acho que ele divide tudo com o primeiro-secretário.

João Carlos – É a sintonia. Porque o primeiro-secretário, em última análise, é ele que delibera (durante a gestão de Agaciel, vários senadores ocuparam a primeira-secretaria. No período a que Zoghbi se refere, foram os senadores Romeu Tuma, do PTB-SP, e Efraim Morais, do DEM-PB).

Denise – Ele (Agaciel) fica com a parte do leão. Agaciel está milionário. Eu sei que ele tem casa, apartamento em Natal, uma fazenda no interior do Rio Grande do Norte, várias casas em Brasília em nome de irmãos. Ele faz bem feito.

João Carlos – Não vai ser aqui em Brasília. Vai ver na origem dele.

O QUE DIZ EFRAIM: “Não segui cartilha de ninguém. As palavras dele não têm nenhuma verdade. Agaciel nunca determinou nada. Pelo contrário. Como senador, não tem nenhum sentido eu seguir a cartilha de um funcionário. Fiz um trabalho transparente na primeira- secretaria e todas as tentativas contra mim não foram comprovadas”.


O esquema das terceirizações

Denise – Eu tenho uma história melhor. Vai atrás das empresas terceirizadas.

ÉPOCA – Cadê o mapa da mina das terceirizadas?

Denise – Ele (Agaciel Maia) é sócio de todas as empresas terceirizadas.

ÉPOCA – Ele é sócio? Onde é que eu encontro?

Denise – Não sei.

ÉPOCA– Por exemplo: você usou sua ama de leite. Quem ele usa? No nome de quem está essa coisa?

João Carlos – Espera aí: se olhar todo direcionamento de contratos e quem realizava os contratos do Senado... Vai ver um crescimento exponencial de patrimônio do diretor que realizava os contratos. Durante esse período o patrimônio dele cresceu muito...

ÉPOCA – Isso não tem nada de novo. Tanto é que ele caiu. Quero avançar nessa história.

João Carlos – Não estou falando nada disso. É essa pessoa que contribuía para esse processo. Como as terceirizadas? Através do ex-diretor de contratos Dimitrios Hadijnicolaou (ex-diretor da Secretaria de Compras do Senado, que perdeu o cargo em agosto de 2008 depois de ser acusado pelo Ministério Público de participar de fraudes em licitações para contratação de empresas terceirizadas pelo Senado). Estou te dando caminhos.


Agaciel e as terceirizações

Denise – O que todo mundo dentro do Senado sabe é que todas as terceirizadas são dele (Agaciel). Todas as contratações passam por ele.

ÉPOCA – Mas como provo isso? Por exemplo: quando a gente descobriu a dona Maria Izabel (a babá de João Carlos Zoghbi), a gente teve como chegar. Precisamos da Maria Izabel dele.

João Carlos – Quer uma ponta? Ele tem uma penca de irmãos. Mas tem um que trabalha no Senado. É o Oto Maia, que é o mais próximo. Pode ter outros, mas esse, necessariamente, tem o nome dele.

Denise – Tem de verificar quem são os donos. Tem um compadre, que eu não sei o nome dele, que é o marido de uma mulher que trabalha com a mulher dele. Já me falaram que tem coisa. Trabalha no 9o andar e que, inclusive, ficou no lugar dela.

João Carlos – Uma coisa é certa: ele não está concentrado em cima de uma pessoa. Ele tem braços porque foram 14 anos no comando. Deve ter umas dez terceirizadas.

Denise – Por aí, imagina. Cada um com uma média de mil, 2 mil funcionários.

João Carlos – Tem no Prodasen, na comunicação social, no transporte, na vigilância, na parte de segurança.

ÉPOCA – E na taquigrafia?

Denise – A taquigrafia é um escândalo. O serviço público tem o órgão dele de taquigrafia e contrata uma empresa para taquigrafar e fazer os mesmos serviços.

ÉPOCA – E de quem é essa empresa?

Denise – Essa empresa é da Cleide (Cleide Cruz, diretora da Secretaria de Comissões do Senado, que atuou como secretária de importantes CPIs do Congresso, inclusive a que levou ao impeachment do ex-presidente Fernando Collor). Que eu saiba, a filha dela é que tomava conta da empresa. Era a gerente.

O QUE DIZ CLEIDE CRUZ: “Não é verdade. Uma multinacional chamada Steno Brasil presta serviços de transcrição de reuniões em tempo real para o Senado. Não é exatamente taquigrafia, por ser bem mais moderno. Essa empresa, de grande porte, sem ligações empresariais comigo, passou por uma licitação para entrar na Casa. Uma empresa da qual minha filha é sócia presta serviço de administração para a Steno Brasil. Não há nada de irregular e o Ministério Público já investigou”.


O Interlegis e o clã Tuma

ÉPOCA – Vocês podem falar do que vocês viram ali dentro.

João Carlos – A gestão é muito centralizada.

Denise – Procura olhar o Interlegis (programa desenvolvido pelo Senado para modernizar e integrar os poderes legislativos, federais, estaduais e municipais).

ÉPOCA – Tinha o Tuminha (ex-deputado federal Robson Tuma, filho do senador Romeu Tuma, do PTB de São Paulo) operando ali em determinado momento?

Denise – O Agaciel neutralizou ele, rapaz. O Agaciel fez o Sarney brigar com o Tuma.

João Carlos – Olha, vamos lá. Ninguém imaginava que o Tuma fosse tão fraco naquele momento. O Agaciel anulou o Tuma. O Tuminha tentou ali, forçou uma situação em determinado momento e o Agaciel neutralizou o Tuminha e deixou o Tuma desmoralizado nisso aí.

Denise – O primeiro-secretário só trabalhava se fosse na cartilha do Agaciel. Todos fecharam com ele. Vai no Interlegis.

João Carlos – Outra ponta para puxar envolve o Interlegis. Ali é dinheiro de recurso internacional, de empréstimo do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), que não passa pelo processo licitatório. Teve uma contratação de R$ 10 milhões de um censo que foi feito diretamente por eles nesse processo. E mais: o Interlegis é todo minado.

Denise – E estão preparando outro censo...

ÉPOCA – E esse censo foi feito?

João Carlos – Foi feito na época.

Denise – Eles inclusive falam com muito orgulho da realização.

João Carlos – O Interlegis nasceu lá atrás com a Regina em um propósito e, de lá para cá, ele foi todo sendo deturpado.

ÉPOCA – A Regina do Prodasen? (Regina Borges é a funcionária que no ano 2000, por determinação dos então senadores Antônio Carlos Magalhães e José Roberto Arruda, mandou violar o painel eletrônico do Senado na votação secreta em que foi cassado o senador Luiz Estevão.)

João Carlos – Antes do escândalo do painel, o Interlegis foi criado com uma finalidade específica. Mas ficou um organismo de fachada para contratação de pessoas e de serviços. O dinheiro do Interlegis não passava pelo crivo da Lei 8.666 (que regula as compras e a contratação de serviços no setor público). Aí é que está. A contratação das pessoas deveria ser para cargos técnicos e trabalhar dentro do Interlegis para cumprir a missão do órgão. No entanto, os servidores foram trabalhar nos Estados e nos gabinetes a critério do Agaciel. Isso tem como provar. Historicamente, toda a trajetória do Interlegis foi sempre de desvios. E não são poucos recursos.

O QUE DIZ ROMEU TUMA: o senador Romeu Tuma defende o Interlegis e afirma que tem boas relações com Sarney: “Na primeira-secretaria sempre me pautei pela ética. Advogados e consultores da Casa trabalharam seriamente compromissados com o interesse público, tudo com a concordância da mesa diretora. Sempre fizemos normas para evitar qualquer possibilidade de desvio. Quanto ao Interlegis, há um acordo com o Banco Mundial, que faz regularmente auditoria externa e interna. É um trabalho sério, que investe na transparência. Também repudio qualquer ilação de mal-estar com o senador José Sarney, que respeito muito”.

O QUE DIZ ROBSON TUMA: “Nunca tive acesso e nem me envolvi em qualquer processo no Senado. O fato de ele (Zoghbi) ter sido descoberto em atos ilícitos não pode fazer com que ele ataque genericamente para encobrir seus erros. Zoghbi cita o meu nome porque não tenho mais imunidade parlamentar nem tribuna para me defender. É uma atitude própria de quem está desesperado e tenta jogar a culpa em outros para tirar qualquer responsabilidade de suas costas. Vou entrar na Justiça contra o Zoghbi”.

O QUE DIZ EFRAIM: o senador Efraim Morais acusa João Carlos de querer tumultuar o Senado: “As palavras dele têm de ser medidas, depois de tudo o que aconteceu. Que se fiscalize o Interlegis. Renovamos o contrato do Interlegis 2 em um total de U$ 33 milhões e não foi usado nada porque estava terminando o nosso mandato na mesa diretora. O Interlegis é fiscalizado pelo BID. Cabe a ele (Zoghbi) mostrar a roubalheira, então. Há uma vontade dele de tumultuar tudo. Ele vai ter de provar”.


As ligações com os caciques do Senado

João Carlos – O Agaciel tem a veia política. Na primeira vez que o Sarney colocou ele lá, o Agaciel fez um trabalho de formiguinha de senador em senador para fazer a cabeça do Sarney.

Denise – Ele ganha todos os senadores.

ÉPOCA – O Agaciel presta favores variados.

João Carlos – É. Pois é. Ali, tem todo tipo de favores.

Denise – Um exemplo é o ACM (senador Antônio Carlos Magalhães, morto em 2007). Ele não suportava o Agaciel e depois passou a adorar. O Renan (Calheiros, líder do PMDB) não suportava ele e depois passou a adorar.

João Carlos – Ele era um facilitador. Vendia facilidade para todos, pô. Tem de fazer o transporte disso e mais daquilo? Ele fazia o transporte. Tem de imprimir isso e mais aquilo? Ele imprimia. Esse negócio de passagem. Tudo foi administrado de forma concentrada.

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