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20 dezembro 2008

Revista Veja: DARFUR - À ESPERA DE UM SALVADOR



Em um mundo em que a corrente de informação circula ao ritmo de terabytes por segundo e quase tudo o que se quer saber está, para 1 bilhão de pessoas, a apenas um clique de distância, como explicar que a tragédia de Darfur seja invisível? O mundo ignora ou finge ignorar que Darfur, no Sudão, é cenário de uma guerra de extermínio contra uma população indefesa. O mesmo mundo que se apieda de um filhote de urso-polar abandonado pela mãe no zoológico de Berlim fecha os olhos para as centenas de milhares de crianças subnutridas dos 130 campos de refugiados de Darfur. O mundo que está prestes a comemorar o Natal, festa que ultrapassou os limites do cristianismo para congraçar homens e mulheres de diferentes credos, esquece que em Darfur a noite de 24 de dezembro será apenas véspera de mais um dia em que crianças morrerão, homens serão executados e mulheres, estupradas. Vem sendo assim desde 2003, quando eclodiu o conflito entre o governo do ditador Omar al-Bashir e rebeldes dessa região do oeste sudanês. E também quando, armados pelo governo de Cartum, bandos de facínoras, a pretexto de combater revoltosos, intensificaram a matança indiscriminada de cidadãos que não pertenciam à sua etnia "árabe".

A questão étnica que alimenta as atrocidades perpetradas na região é, por assim dizer, atávica em Darfur – e nada tem a ver com o tipo de disputa que está na base dos conflitos modernos. De acordo com uma pesquisa divulgada na semana passada pelo Instituto para o Estudo de Conflitos Internacionais de Heidelberg, na Alemanha, os principais motivos de tensões no mundo, hoje, são os fatores ideológicos (teocracia contra estado secular, por exemplo) e o separatismo ou busca por autonomia regional – e tais não são os casos em Darfur. O que se tem ali é uma guerra que há muito perdeu qualquer propósito. O que se tem ali é uma matança selvagem, seja por meio de fuzilamentos sumários, seja por meio da fome imposta pelo isolamento. Paz, em Darfur, é um conceito demasiado abstrato, inalcançável até mesmo como metáfora para as crianças que crescem em campos fétidos e violentos. A única luz nesse mundo escurecido pela ausência da razão é proporcionada pelo trabalho das organizações humanitárias. Os valores universais da civilização, celebrados por ocasião do Natal, movem os voluntários em Darfur como os ventos giram os moinhos. Esses abnegados de diferentes partes do planeta, inclusive do Brasil, mantêm viva a esperança de que, um dia, a comunidade internacional finalmente dirá um sonoro basta ao que ocorre no Sudão.

Tomorrow, inshallah: "Amanhã, se Alá quiser". A frase, parte em inglês, parte em árabe, é repetida em tom monocórdio nas repartições públicas do Sudão, como resposta aos estrangeiros que cobram a autorização do governo para viajar a Darfur, no oeste do país. A guerra civil na região provocou uma crise humanitária de proporções épicas. Quase metade dos 6 milhões de habitantes de Darfur vive em aglomerações humanas improvisadas, os campos de deslocados internos – ou, simplesmente, refugiados. Outros 2 milhões de pessoas ainda não deixaram suas aldeias, mas foram afetadas pela destruição de lavouras ou pela morte de familiares. A exigência da permissão a estrangeiros para viajar à zona de conflito é uma tentativa do governo de sonegar ao resto do mundo dados e imagens dos horrores cometidos em Darfur. O ditador sudanês Omar al-Bashir, que chegou ao poder em 1989 em um golpe organizado por fundamentalistas islâmicos, tem mesmo o que esconder. Com a justificativa de combater rebeldes que lutam contra o regime, o governo do Sudão bombardeia aldeias e apóia os janjaweeds, milícias autoproclamadas árabes cuja missão é limpar Darfur de outras etnias. Ao todo, já morreram 300000 pessoas. Hoje, os ataques acontecem com menos intensidade do que no início da guerra, em 2003 e 2004. Mas não são números que definem um genocídio.

Cinco anos atrás, quando a opinião pública do planeta começou a ser informada sobre a matança em Darfur, havia a convicção de que as organizações mundiais provariam sua capacidade de impedir, às portas do século XXI, extermínios como os que assolaram a história dos 100 anos anteriores. Hoje, os fatos atestam que tal desígnio fracassou. Este mês marca o aniversário de sessenta anos da assinatura da Convenção para a Prevenção e Punição do Genocídio da Organização das Nações Unidas, que definiu como crime internacional a tentativa de destruir a totalidade ou parte de um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. Segundo o texto da ONU, não é preciso haver assassinatos em massa para que um crime seja classificado como genocídio. Impor condições de vida subumanas a um grupo de pessoas semelhantes entre si, com o objetivo de levar à sua destruição física, também se enquadra nos critérios da convenção. É o que ocorre em Darfur. O número de combatentes e civis mortos de maneira violenta caiu de 4500 em 2006 para 3000 no ano passado. O genocídio silencioso, no entanto, segue seu curso. Desde o início deste ano, 300000 pessoas foram obrigadas a deixar suas casas, suas pequenas lavouras e suas terras. Elas fogem dos ataques a suas aldeias, do estupro coletivo e da desertificação do Sahel, a faixa semi-árida ao sul do Deserto do Saara que domina a paisagem local.

Vista do alto, Darfur é uma região predominantemente desértica, entrecortada de leitos secos de rios. Sazonais, eles só têm água durante três meses por ano, em média. De perto, a aridez é amenizada pelo colorido dos panos usados pelas mulheres muçulmanas para se cobrir e pela existência de uma vegetação esparsa que exibe improváveis árvores frondosas, como mangueiras. Sob uma delas, na cidade de El Fasher, capital de Darfur do Norte, rebeldes de uma das facções do Exército de Libertação do Sudão (SLA, na sigla em inglês) aproveitam a sombra para conversar sentados em cadeiras de plástico ou apoiados em seus Kalashnikov, com os quais dão sua contribuição às atrocidades da guerra. Cinco vezes ao dia, eles estendem seus tapetes e rezam voltados para Meca, enquanto o fuzil automático repousa ao lado. Entre as casas de alvenaria de El Fasher, construídas sobre a areia fofa, os carros traçam aleatoriamente o percurso das ruas.

Essa Darfur quente, de natureza hostil, é dividida em três estados: o já citado Darfur do Norte, o do Sul e o do Oeste. Juntos, representam quase um sexto do território do Sudão, o maior país da África. A fé da maioria da população é o islamismo – a assertiva vale também para Darfur. Há dezenove etnias no país, que por sua vez se dividem em seis centenas de tribos distintas. O nome Sudão tem origem na palavra "negro", em árabe. "Terra dos negros": era assim que os mercadores e traficantes de escravos vindos do Oriente Médio – introdutores do islamismo a partir do ano 1000, em substituição ao cristianismo – se referiam ao atual território sudanês. Um milênio de miscigenação fez com que em todas as tribos predominasse o mesmo tom de pele muito escuro, inclusive naquelas que se definem como "árabes". A identificação étnica, hoje, tem mais a ver com hábitos culturais, como o nomadismo, do que com a aparência física. Desde a independência do Império Britânico, em 1956, os "árabes" do norte do país detêm o monopólio do poder político e econômico, concentrado na capital, Cartum. Negligenciado pelo centro do poder, o sul, de maioria africana e católica, deflagrou em 1983 uma guerra de secessão que levaria à morte de 2 milhões de pessoas. Um acordo firmado em 2005 acabou com o conflito, dando mais autonomia e mais dinheiro aos estados do sul do país. Foi quando o sul e o norte iniciaram as conversações de paz, que deflagraram uma nova guerra civil em Darfur, onde havia décadas tribos majoritárias se sentiam prejudicadas pelos sucessivos governos corruptos de Cartum. A população da região, quase toda muçulmana, é formada por dezenas de tribos, divididas entre as que também se dizem árabes, em geral nômades e pastoris, e outras de cultura eminentemente africana, de hábitos sedentários e dedicadas à agricultura. A violência étnica, que já era parte do cotidiano local havia séculos, exacerbou-se quando milícias "árabes" começaram a ser armadas por encrenqueiros – inclusive externos, como Muamar Kadafi, ditador da Líbia. Para complicar, grupos armados do Chade, empenhados em derrubar o governo de seu país, usam a região sudanesa como refúgio.

Os rebeldes de Darfur, no começo da década, eram formados exclusivamente por membros de etnias como os furs, os zaghawas e os masalits, que se viram obrigados a se armar para proteger suas terras dos janjaweeds. O governo sudanês reagiu aos primeiros ataques dos rebeldes, ampliando assim seu apoio às milícias. Na prática, isso significou armar os janjaweeds e preparar o terreno para os seus ataques. Há relatos de aldeias que foram cercadas pelo Exército sudanês, para que ninguém fugisse antes de os janjaweeds entrarem, saquearem, matarem indiscriminadamente e reunirem as mulheres para estupros coletivos. Hoje, os rebeldes provêm de todas as etnias da região – porque a guerra contra elas é total. "Em Darfur, os árabes e os africanos se parecem uns com os outros. Foi a propagação da ideologia da supremacia islâmico-árabe entre os povos nômades do deserto que levou negros a matar negros," explica o historiador Muhammad Jalal, da Universidade de Cartum.

A reportagem de VEJA visitou, no mês passado, cinco campos de refugiados nos três estados de Darfur. As histórias dos moradores desses campos se repetem com variações ínfimas: suas aldeias foram bombardeadas; seus familiares, assassinados pelas milícias; suas mulheres, raptadas e violentadas. Ou: a aldeia vizinha foi atacada e eles acharam que seriam os próximos. Ou: houve combates entre rebeldes e janjaweeds, a aldeia foi afetada, suas lavouras foram queimadas e o gado, roubado. "Meus irmãos foram assassinados a tiros e minha casa, incendiada pelos janjaweeds", conta Fatima Adam Abdala, de 30 anos. Na fuga, ela caminhou durante dois dias até chegar ao campo de Kalma, em Darfur do Sul, onde vive hoje. Um dos homens responsáveis por proteger a população civil de ataques como esses é o general Henry Anyidoho, de Gana, vice-representante especial da Unamid, a força de paz conjunta da ONU e da União Africana em Darfur. Na tarde de 23 de novembro, um domingo, Anyidoho recebeu VEJA para uma entrevista em seu contêiner com ar condicionado no quartel-general da Unamid, em El Fasher. No mesmo dia, a 100 quilômetros a noroeste dali, uma aldeia foi bombardeada pela Força Aérea sudanesa, informação que só chegou ao comando da Unamid 48 horas depois. O episódio demonstra a impotência dos mecanismos aos quais foi confiada a tarefa de impedir o genocídio que adentra o século XXI.

A missão de paz integrada por Anyidoho não é omissa. Ela simplesmente não conta com o contingente e o equipamento necessários para cumprir seu mandato de impor a paz em Darfur – à força, se necessário. A resolução da ONU que criou a Unamid se dispôs a enviar 26.000 homens e 24 helicópteros militares à região. Hoje, há apenas 9.300 capacetes azuis (a cor das Nações Unidas) para monitorar um território do tamanho do Paraguai (outros 2.400 devem chegar ainda neste mês). E nenhum helicóptero. Repita-se: nenhum. Em julho passado, um comboio da Unamid foi pego numa emboscada por uma milícia com duas centenas de homens armados. No embate, sete soldados da força de paz morreram. Se houvesse helicópteros militares, os 22 feridos poderiam ter sido evacuados em vinte minutos. Como não havia, o resgate levou três horas. Uma missão de paz depende da boa vontade das nações para receber soldados e veículos emprestados. "Quem sabe o governo brasileiro não pode ceder alguns de seus aviões militares da Embraer?", diz Anyidoho. Ele está acostumado a não ser ouvido. No início da década de 90, o general ganense de 120 quilos era o segundo no comando da força da ONU em Ruanda, quando 800000 tútsis foram massacrados por milícias hutus. Anyidoho e seu chefe, o general canadense Roméo Dal-laire, alertaram a comunidade internacional sobre a limpeza étnica antes que ela acontecesse e pediram ao Conselho de Segurança mais soldados e autorização para impedir a matança. Em vez disso, foram ignorados e impedidos de interceder no que o presidente americano Bill Clinton chamou, na ocasião, de "assunto interno de Ruanda". Anyidoho assistiu impotente ao genocídio.

Em relação a Darfur, para contrabalançar a ineficácia da missão de paz propriamente dita, está em curso uma operação de ajuda humanitária que atenua as vicissitudes dos refugiados. Graças a ela, a taxa de desnutrição caiu pela metade nos últimos anos. Atuam na região dezesseis agências da ONU e 85 ONGs, que prestam serviços como atendimento de saúde e distribuição de comida. Para cada 366 habitantes de Darfur, há um trabalhador humanitário. Entre eles, Mauricio Burtet, de 32 anos, um gaúcho hiperativo que trabalha em El Fasher como chefe de campo do Programa Alimentar Mundial (PAM), agência da ONU especializada em distribuição de comida em situações de emergência. Burtet explica a dificuldade de trabalhar na região: "As cotas de comida que conseguimos distribuir a cada pessoa estão abaixo do ideal, porque nossos carregamentos têm sido roubados e nossos motoristas, seqüestrados". Só neste ano, 100 caminhões do PAM desapareceram nas mãos de bandos armados, que ninguém sabe identificar se são janjaweeds, rebeldes ou um dos grupos criminosos sem filiação política que proliferam em Darfur, onde um AK-47 pode ser comprado por 100 dólares. Nos morros cariocas, custa 120 vezes mais.

As organizações de ajuda e a Unamid enfrentam uma situação paradoxal em Darfur. Elas estão lá para proteger a população civil, mas, para atuar, dependem da boa vontade do governo sudanês – algoz dos refugiados. A Unamid, por exemplo, precisa importar milhares de toneladas de equipamentos para suas tropas, de material de escritório a veículos blindados. Com freqüência, os fiscais do governo sudanês levam meses para liberar os contêineres da Unamid na alfândega. Os trabalhadores humanitários passam por dificuldades semelhantes com a burocracia estatal. A atividade das ONGs ficou ainda mais penosa depois do indiciamento de Omar al-Bashir, em julho passado, pelo promotor-chefe do Tribunal Penal Internacional (TPI), o argentino Luis Moreno-Ocampo. O ditador foi indiciado por genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra em Darfur. Se os juízes do TPI acatarem a acusação, uma decisão a ser tomada nos próximos meses, Al-Bashir não poderá mais viajar a nenhum país signatário do tribunal internacional, incluindo o Brasil. Ele será preso se o fizer. Com isso, Moreno-Ocampo criou um motivo a mais para os burocratas sudaneses, afundados em seus sofás velhos nos prédios públicos decrépitos de Cartum, repetirem seu mantra: "Tomorrow, inshallah". Não surpreende que os funcionários da ONU e das ONGs humanitárias critiquem Moreno-Ocampo, a quem acusam de exibicionismo e de não pensar nas conseqüências políticas de suas decisões. "Nunca ouvi dizer que a Argentina tivesse bons advogados", ironiza o etíope Abdul Mohammed, diretor do departamento político da Unamid.

Para além do destemor, os oficiais da missão de paz – que se dividem entre militares e policiais – têm em comum o abatimento. "Temos uma missão impossível", diz William Caine, um policial inglês aposentado. De dentro do quartel-general da Unamid em El Fasher, ele aponta para o campo de Abu Shouk, com cerca de 50000 pessoas, onde os capacetes azuis fazem patrulhas durante o dia. Não há contingente para fazer o mesmo à noite, quando ocorrem tiroteios e raptos de mulheres. Entre suas tarefas está uma paradoxal: treinar a polícia sudanesa dentro de padrões de respeito aos direitos humanos e tentar estabelecer um elo de confiança entre essas forças de segurança e os refugiados. "Como fazer isso se a polícia daqui representa o mesmo governo que os ataca?", pergunta-se Caine.

Que o digam os refugiados de Kalma, em Darfur do Sul. Na manhã do dia 25 de agosto, a polícia sudanesa tentou entrar em Kalma, campo com mais de 80000 pessoas, para procurar por armas e rebeldes. Trinta e três moradores foram mortos e setenta feridos, incluindo mulheres grávidas e crianças. "Ainda tenho medo de que isso possa se repetir", diz Fatima Adam Hamis, de 20 anos, que teve uma irmã e um sobrinho feridos no episódio. O psiquiatra Alberto Hexsel, de 54 anos, gaúcho de Passo Fundo, que passou alguns meses trabalhando para a organização Médicos sem Fronteiras, estava próximo a Kalma quando o ataque aconteceu. Ele participou do socorro aos feridos. "Nós entramos no campo horas depois e, além de muito sangue no local do massacre, vimos chinelos e sapatos espalhados, deixados para trás durante a correria", conta Hexsel. Como na maioria dos campos, os refugiados de Kalma vibraram ao saber que Al-Bashir havia sido indiciado pelo Tribunal Penal Internacional. Mas, também a exemplo do que ocorre nos outros campos, não esperam que o ditador seja preso ou deposto para tentar melhorar sua vida.

Depois de quatro ou cinco anos morando de maneira improvisada, os refugiados procuram dar a suas cabanas um aspecto menos precário. Uma das atividades mais dinâmicas nos arredores dos campos é a produção de tijolos. Entre Abu Shouk e Al Salaam, em Darfur do Norte, o terreno ganhou um aspecto de queijo suíço, com centenas de crateras de onde mulheres, homens e crianças cortam pequenos blocos de barro. Em Hamadiya, em Darfur do Oeste, próximo a Jebel Marra, montanha dominada por rebeldes, as acácias e palmeiras foram derrubadas para alimentar o fogo dos fornos de fabricação de tijolos. Sobraram alguns poucos baobás, árvores de caule largo, comuns na savana africana. Com o tempo, as cabanas de palha ou tendas estão sendo substituídas por casas com paredes de barro ou tijolo artesanal. Taiba, em Darfur do Oeste, e outros campos habitados por clãs árabes são uma exceção. Com medo da guerra, seus moradores abandonaram os hábitos nômades, mas mantiveram a tradição de viver em cabanas de palha efêmeras.

Os campos de refugiados são verdadeiras bombas populacionais: a maioria continua recebendo milhares de pessoas por ano. Elas buscam desesperadamente um lugar onde possam ter alguma sensação de segurança, por menor que seja. "A maioria dos campos está à distância de um dia de caminhada de uma base da Unamid", diz o diretor de Informação Pública Kemal Saiki, um argelino que usa um relógio em cada pulso, come faláfel três vezes por dia e já serviu em meia dúzia de missões de paz ao redor do mundo. Nos campos, os refugiados têm condições mínimas de se sustentar por conta própria, pois não há espaço para plantar ou manter uma criação numerosa de bodes e camelos. "Tenho uma pequena plantação a três horas de caminhada do campo", diz Tigani Bilal Suleiman, de 55 anos, morador de Al Salaam que consegue com isso obter uma renda equivalente a 2 dólares por dia. Outros homens tentam algum subemprego nas cidades e as mulheres recolhem lenha para vender, sob o risco de serem estupradas nos arredores do campo. "A violência sexual é um problema real em Darfur, mas o governo quer abafar o assunto, impedindo as ONGs de criar programas de apoio psicológico às mulheres", disse a VEJA o subsecretário-geral da ONU para Assuntos Humanitários, John Holmes.

O ponto de encontro de trabalhadores de organizações de ajuda humanitária, funcionários da ONU e jornalistas, enquanto lutam contra a burocracia montada para impedi-los de ir a Darfur, é Cartum. A capital do Sudão é uma introdução eloqüente ao país. O banheiro do Ministério das Relações Exteriores não tem vaso sanitário, apenas um buraco no chão. Os diplomatas saem dali e têm de limpar a sola dos sapatos no tapete vermelho do corredor. Com exceção de algumas poucas vias principais, as ruas de Cartum são de terra, inclusive no centro da cidade. Como chove muito pouco – 150 milímetros por ano, um décimo da média de Brasília –, isso faz da capital sudanesa um lugar empoeirado e marrom. Nem o fato de a cidade estar situada junto ao encontro dos rios Nilo Azul e Nilo Branco salva a paisagem.

Não há muito que fazer na capital. Os canais de televisão abertos são controlados pelo governo. Os jornais, censurados. "Todas as tardes, um funcionário da segurança nacional vem à redação para vetar os artigos que falem do indiciamento de Al-Bashir, de Darfur ou dos desastres ambientais causados pela exploração de petróleo", diz Omuno Otto, membro do conselho editorial do jornal Khartoum Monitor. Apenas um em cada 126 sudaneses tem acesso à internet. No Brasil, a média é de um em cada cinco habitantes. Quando podem, os sudaneses embebedam-se às escondidas, trancados em casa, já que a lei islâmica pune com chicotadas o consumo de álcool. Traficantes etíopes oferecem cerveja e uísque nas calçadas do centro, como se vendessem maconha. Uma garrafa do uísque Johnnie Walker Red Label sai por 100 dólares no mercado negro, três vezes mais do que num supermercado brasileiro. Em maio deste ano, o tédio foi interrompido quando um grupo de rebeldes de Darfur, o Movimento da Justiça e Igualdade, ocupou por um dia um subúrbio de Cartum, depois de atravessar 600 quilômetros de deserto. Pela aparência e falta de infra-estrutura, Cartum faz jus à condição de capital de um dos países mais pobres do mundo. O Sudão está logo abaixo do Haiti no ranking do índice de desenvolvimento humano da ONU. A taxa de mortalidade infantil sudanesa é uma das quinze mais altas do planeta. O serviço de saúde gratuito praticamente inexiste. Mesmo o cidadão mais pobre, quando vai a um hospital público, tem de pagar. As clínicas particulares parecem cortiços. A qualidade dos médicos é tão baixa que, com freqüência, o paciente sai da consulta com três diagnósticos diferentes e a orientação para fazer tratamento para todos eles, por garantia.

As condições de vida dos sudaneses contrastam com os recursos naturais de seu país. A exportação de petróleo estimula um crescimento econômico que, no ano passado, foi de 12,4%. Isso faz do país a segunda economia que mais cresce na África, atrás apenas de Angola. Sob sanção econômica dos Estados Unidos desde 1997, por apoio ao terrorismo islâmico e pelo conflito em Darfur, o Sudão está à margem do sistema financeiro mundial. Todo viajante no país se torna um cofre ambulante, já que cartões de crédito não são aceitos e é preciso carregar dinheiro em espécie. O isolamento aproximou o Sudão da China, hoje seu maior parceiro comercial e investidor. Os chineses são os maiores acionistas da principal empresa petrolífera do país e dominam os contratos na área de infra-estrutura, onde ainda há tudo por fazer: o Sudão tem apenas 3000 quilômetros de estradas e ruas asfaltadas, das quais quase metade foi construída pelo terrorista Osama bin Laden, que viveu em Cartum na década de 90 a convite do governo. Os interesses econômicos da China no Sudão deram a Al-Bashir um aliado com poder de veto no Conselho de Segurança da ONU. Isso explica em parte por que é tão difícil aprovar resoluções de represália ao seu governo – outra razão é a ajuda que o Sudão recebe de países como o Brasil, que se absteve em 2006 numa votação da ONU que visava a exigir a investigação dos crimes em Darfur. Quando permite a aprovação de sanções, a China não as respeita: o país asiático vende equipamentos militares às forças sudanesas, apesar da resolução das Nações Unidas que proíbe o comércio de armamentos com o país africano.

Há um consenso de que a crise humanitária em Darfur só terá fim com negociações de paz que incorporem os líderes rebeldes à política nacional, como ocorreu no acordo que acabou com a guerra civil entre o norte e o sul do país. Uma tentativa de colocar rebeldes e o ditador Al-Bashir para negociar está sendo feita pelo governo do Catar, no Oriente Médio. O problema é que Al-Bashir já descumpriu outros acordos de cessar-fogo. Por isso, são exigidas do seu governo quatro provas de confiança. A primeira será admitir que os habitantes de Darfur foram vítimas de atos criminosos por parte do estado, cuja obrigação era protegê-los. A segunda será compensar financeiramente os afetados pela guerra. A terceira será abolir a divisão de Darfur em três estados, uma medida adotada na década de 90 para enfraquecer a oposição. Por fim, mas não nessa ordem, o governo deverá cessar por completo os bombardeios e iniciar o desarmamento das milícias. Este será o maior desafio porque, como diz o ditado sudanês, dar comida ao leão é fácil. Difícil é tirar. O indiciamento de Al-Bashir irritou o regime militar do Sudão e atrapalhou o trabalho das organizações internacionais no país. Mas criou uma oportunidade: Darfur voltou ao centro das preocupações dos políticos do país e há uma convicção generalizada de que é preciso encontrar uma saída para a região. Esse pode ser o primeiro passo para a paz. Inshallah.

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