Featured Video

30 novembro 2008

Chuva, lama e dor

FONTE: Revista IstoÉ




Chovia sem parar havia quase dois meses em Santa Catarina. O vigia Francisco Mendonça, 48 anos, terminou seu turno na hora do almoço, no sábado 24, e planejava visitar alguns parentes antes de seguir para casa, mas mudou de idéia diante da tempestade. Ele estava acostumado aos temporais, muito comuns na região, e até às enchentes, mas naquele dia a chuva sem trégua mostrava uma força incomum. Na sua casa, na localidade de Sertão Verde, em Gaspar, ao perceber as águas ocupando o pátio, sua mulher, Maria Marlene, 49 anos, decidiu ir para um local mais seguro. Na véspera, a casa deles já havia sido invadida pela chuva. Por telefone, ela contava à filha Jussara, moradora de Blumenau, que estava se preparando – com duas filhas, dois netos e dois sobrinhos – para se abrigar na casa do cunhado. “De repente, ela parou de falar e ouvi apenas um chiado. Em seguida a ligação caiu”, relatou Jussara a parentes. A ligação caiu por causa da chuva. Maria Marlene conseguiu ir com a família para a casa do cunhado.

Por volta das 13h, uma avalanche de lama e árvores soterrou três casas na localidade, entre elas a do irmão de Francisco, matando toda a família. Ironicamente, a dele permaneceu intacta. “Era a hora deles, não tem outra explicação”, lamentava o vigia. Entre os escombros, uma cena emocionou até os bombeiros: Débora, 26 anos, (grávida de dois meses), e Ester, de quatro, filha e neta de Francisco, morreram abraçadas. A família Mendonça foi sepultada sem velório e em caixões de papelão na terça-feira 25.

Gaspar, localizada no Vale do Itajaí, a 116 Km de Florianópolis, foi uma das cidades mais atingidas pela fúria das águas – 15 pessoas morreram – que devastou parte de Santa Catarina. O dilúvio fez os morros derreterem e um tsunami de lama, rochas e árvores provocou destruição jamais vista no Estado. Até a tarde da sexta-feira 28, a Defesa Civil contabilizava 100 mortos, 19 desaparecidos e quase 80 mil desabrigados ou desalojados. Calcula- se que 1,5 milhão de pessoas tenham sido afetadas.

Os catarinenses descrevem um cenário de guerra. Ruas tomadas pela água e lama, casas destruídas, pontes quebradas, postes tombados, supermercados saqueados. Mais de 80% da cidade de Itajaí submergiu. Em Blumenau, uma das maiores da região, 95% da população ficou sem água e a lama chegou a meio metro de altura no centro histórico. As rádios da cidade não funcionavam. Cerca de 172 mil pessoas passaram dias sem luz no Estado. O abastecimento de gás foi reduzido em 72% na região por causa de rompimentos em gasodutos. Faltava comida, água virou artigo de luxo, o litro de gasolina chegou a R$ 6 e o comércio só aceitava dinheiro ou cheque porque não havia como realizar pagamentos em cartões de crédito e débito. Dezenas de milhares de pessoas perderam tudo: casa, carro, roupas, documentos, memórias de uma vida inteira. As cenas de horror lembravam a Nova Orleans (EUA) devastada pelo furacão Katrina em 2005, quando quase 1.500 pessoas morreram. Até hoje a cidade está em reconstrução.

Quem escapou da morte ainda tem os momentos de terror vivos na mente. “Nossa casa foi arrastada em pé, a poucos metros de onde a gente estava. Desabou e virou um monte de entulho na nossa frente”, conta Jonathan Neuberger, 20 anos, morador de Blumenau. Recém-casado, ele e a mulher estavam construindo uma casa e, por isso, viviam provisoriamente com os pais dele. Na fatídica noite de sábado, quando a chuva se tornou mais intensa, eles perceberam que a água e o barro desciam com força do morro e começavam a entrar na casa. Por volta da 1h, eles decidiram sair e se abrigaram na varanda do vizinho no outro lado da rua.

“Ficamos observando a água e o lodo que entravam pela parte dos fundos e saíam pela frente arrastando os móveis para a rua. De repente, a casa foi arrastada inteira na nossa direção. Só não nos atingiu porque desabou antes. Nos abraçamos e choramos desesperados”, lembra Jonathan, que voltou ao local na quartafeira 26 para tentar recuperar algo de valor, como o álbum de casamento. O motorista Egon Stevens, 49 anos, também de Blumenau, viveu tragédia semelhante. Ele e a filha Géssica, 21, saíram de casa quando começaram a ouvir estalos. Pouco depois, tudo ruiu. “Levei 11 anos para construí-la, mas os bens materiais a gente recupera”, dizia ele, inconformado com a morte de um vizinho e suas duas filhas.

O governo do Estado ainda tenta medir o tamanho do estrago. O turismo estima perder R$ 120 milhões. A reconstrução da malha viária levará um mês. Além disso, boa parte do comércio e fábricas da região permanecem fechados. “Ainda não conseguimos calcular tudo porque muitas indústrias ainda estão submersas ou sem condições de contato”, diz Alcântaro Corrêa, presidente da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), para quem o prejuízo das empresas superará R$ 1 bilhão. Uma das situações mais graves é a do porto de Itajaí, o segundo maior do País, que está fechado desde a quinta-feira 20 e amarga perdas diárias de R$ 100 milhões. A água arrastou contêineres, invadiu depósitos e destruiu três dos quatro pontos de atracação. O porto é o maior exportador de carnes congeladas do Brasil, setor que movimenta R$ 10 bilhões por ano. Somente na quarta-feira 26, o presidente Lula sobrevoou a região atingida e anunciou a liberação de R$ 1,6 bilhão para Estados castigados pela chuva – cinco mil homens estão trabalhando nesta operação. “Nunca vi coisa como esta”, disse Lula. “É a pior tragédia climática de Santa Catarina”, resumiu o governador Luiz Henrique.

Ainda estão na memória dos catarinenses as enchentes de 1983, na qual morreram 49 pessoas e 197 mil ficaram sem teto, e 1984, quando houve duas mortes e 155 mil desabrigados. Naquela ocasião, foi criada a Oktoberfest, uma festa folclórica alemã, para angariar recursos e ajudar na reconstrução da região, onde ocorrem enchentes desde o século XIX, mas até hoje não há um programa eficiente para combatê-las. Emerson Silva tinha apenas sete anos em 1983, mas, com as imagens daqueles tempos difíceis na memória, resolveu no domingo 23 estocar comida e água assim que as chuvas se intensificaram em Gaspar. Antes do almoço, foi com a mulher, grávida de sete meses, ao mercado. Os armários da cozinha eram novinhos, haviam sido montados três dias antes. Mas a chuva foi implacável e as três casas da família de Emerson ruíram em minutos. Eles escaparam porque saíram pouco antes. O estoque de comida e água se perdeu nos escombros e agora ele, a mulher e a mãe estão hospedados com vizinhos. Também foram as lembranças daquelas enchentes que motivaram Hocinilde Laguna, 42 anos, a deixar sua casa quando a enxurrada alagou a rua, no sábado 22. “Avisei o pessoal para sair”, conta ela. “Mas quase ninguém é daqui, nunca passaram pelo que eu passei. Caminhei com água na cintura.” Na sua rua, em Gaspar, a água chegou a quatro metros de altura.

As enchentes castigaram especialmente Itajaí, que até o final da semana passada ainda estava parcialmente submersa e onde havia sido decretado toque de recolher em razão dos saques. O rio Itajaí-Açu chegou a ficar 11,24 metros acima do nível na manhã da segunda-feira 24. Naquele dia, o caminhoneiro Loreci Schemes só conseguiu chegar em casa de jet-ski. No sábado ele havia viajado com a mulher e o filho de cinco anos para um batizado em Blumenau. Às 5h30 da madrugada de domingo, foi acordado pela cunhada que o avisou da violência da chuva e do perigo de enchente. Ele retornou para Itajaí imediatamente, mas não conseguiu salvar nada. “Perdi tudo”, disse, referindo-se a carro, moto e eletrodomésticos. Só restou o caminhão, que ele conseguiu levar a tempo para um lugar seguro.

Foi a preocupação com os alagamentos, comuns em alguns pontos de Itajaí, que determinou a escolha do bairro Dom Bosco por Josely Rosa para comprar sua casa, no início do ano. Por isso, quando viu a água e a lama invadirem a garagem, mal pôde acreditar. “Minha rua ficou submersa, de algumas casas só se via o telhado, cobras nadavam na água”, contou Josely, que foi retirada do local de barco com o pai e o filho.

De fato, o volume de água que caiu de 21 a 23 de novembro no Vale do Itajaí foi inédito: choveu cerca de 500 milímetros. Para efeito de comparação, Florianópolis, em todo o mês de novembro, costuma registrar um volume de 140 milímetros. “Não identificamos nada igual nos arquivos da região”, diz Suely Petry, diretora do Arquivo Público de Blumenau. Se fosse São Paulo a receber uma enxurrada deste porte, haveria uma catástrofe sem precedentes na história do Brasil, segundo o geólogo Ronaldo Malheiros, da Defesa Civil da capital paulista.

A geografia de Santa Catarina é favorável às fortes chuvas. O litoral e a serra catarinense estão muito próximos e isso contribui para a formação de nuvens pesadas (leia quadro à pág. 40). Mas a situação tomou proporções dramáticas porque houve uma explosão populacional na região – o número de habitantes de Blumenau, por exemplo, duplicou em 25 anos e hoje a cidade tem 290 mil moradores – e, em muitos casos, com ocupação irregular das encostas. Por isso, um mar de lama invadiu as casas, morros desabaram e barreiras caíram nas estradas. A fúria da natureza isolou uma dezena de cidades por vários dias. Foram necessários helicópteros para resgatar as pessoas. Entre elas, Teresinha Floriano, de Ilhota. “Perdi família, casa e emprego”, disse ela, funcionária de uma confecção que desmoronou. Sua irmã, a sobrinha de um ano e meio e nove amigas morreram. Outra costureira da região, Adriana Day, 34 anos, também foi retirada de helicóptero. “Perdemos tudo, era pouco mas era nosso. Agora só temos a roupa do corpo”, diz ela. “Nem chão tenho mais para levantar outra casa.”

A vida pacata que a costureira levava com o marido, os filhos, o pai, a irmã, sobrinhos e primos no vilarejo Alto do Baú, em Ilhota, virou uma catástrofe na madrugada de sábado para domingo. “Primeiro, foi a casa da minha irmã que desabou. A terra molhada carregou a casa dela. Mas todos se salvaram. De manhã fomos tirar barro e logo a minha rua começou a ser atingida pela lama, que empurrava tudo. Saí correndo de casa com meus três filhos. Vi o galpão da cooperativa onde trabalho ser destruído em dois segundos pela enxurrada. Parecia de papel.”

Adriana correu com a família para o campo de futebol da cidade, que teria uma saída para uma estrada. Mas o local já estava isolado pelo barro. “Eu, meu marido, meus filhos e meu pai pegamos o carro, fomos para um lugar seco e passamos a noite lá, os seis, rezando, com as janelas fechadas porque a chuva era muito forte. Nossa única certeza era de que a gente ia morrer ali”, contou Adriana, chorando muito. Durante a noite, o gasoduto que passa pela região estourou. Um clarão fez a terra tremer. O filho dela desmaiou de medo. “Entrei em desespero. Não tinha mais esperança”, disse ela, que credita a um milagre as 26 pessoas da família terem se salvado. “Mesmo assim, nunca vou esquecer. Uma moça vinha no helicóptero chorando, com a filhinha de oito meses morta no colo. Ela conseguiu tirar a neném dos escombros. Você acha que dá para esquecer uma dor dessas?”



Com reportagem de José Carlos Góes (Blumenau), Giselle Zambiazzi (Gaspar), Alan Rodrigues (São Paulo) e Hugo Marques

0 comentários:

Postar um comentário

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More