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31 agosto 2008

O fim do silêncio sobre Isabella

FONTE: Revista Época

Foto: Frederic Jean/Produção: Adriana Sant´Ana
A DELEGADA
Renata Pontes comandou a investigação do caso Isabella, que comoveu o país. Ela diz não ter dúvidas sobre quem matou a menina

Quem conversa com Renata Pontes fora do expediente esquece que ela é uma delegada de polícia. A menos que a conversa seja sobre o caso que a tornou conhecida em todo o país – a morte da menina Isabella. A delegada que comandou as investigações e pôs os acusados na cadeia, à espera de julgamento, tem uma fala tranqüila, uma certa docilidade. Reza todos os dias na capela da delegacia. Seu hobby é a pintura. Renata é uma pessoa serena como as paisagens que pinta. Mas, quando é preciso, pega em armas. Na Academia de Polícia, onde se formou há 11 anos, foi além do curso obrigatório de tiro: aprendeu a manejar a pistola calibre 45 que usa no trabalho – e metralhadoras.

Em serviço, a delegada não usa a clássica combinação de calça e tailleur. Prefere roupas mais confortáveis, sempre discretas – na terça-feira passada, vestia bata e calça legging, calçando sandálias de salto Anabela. Deixa à mão um sapato baixo, para suas saídas. Nos atendimentos do plantão, nas delegacias em que trabalhou, entrou em favela, pulou muro, andou em trilho de trem e picada no meio do mato. Enquanto trabalha, ela se concentra, procura manter um olhar técnico sobre o que investiga. No caso Isabella, Renata não resistiu. Chegava em casa angustiada, pensando “na mãe que não pode mais beijar sua filha”.

Na 9ª Delegacia, no Carandiru, zona norte de São Paulo, Renata é delegada-assistente. Em sua sala há uma boa mesa com poltrona de encosto alto, ar-condicionado e frigobar. A um canto, em pedestais, bandeiras do Brasil, de São Paulo e da Polícia Civil. No ano passado, a delegacia foi premiada por uma ONG holandesa. Às vezes, quando um colega do plantão sai em férias, Renata assume o lugar dele. Foi durante um plantão, das 20 horas às 8 da manhã, que o caso da menina Isabella chegou a sua mesa.

Num primeiro momento, a delegada falou com os jornalistas sobre o crime. Depois, decretou o sigilo do inquérito e não deu mais entrevistas. Só rompeu o silêncio na semana passada, ao receber ÉPOCA no elegante flat em que mora, na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo. A entrevista durou três horas. Foi à beira do jardim, numa mesa externa do restaurante do flat. Pela primeira vez, Renata contou os detalhes de como conduziu a investigação e apresentou todas as razões que a levaram a acusar o pai de Isabella, Alexandre Nardoni, e a madrasta da menina, Anna Carolina Jatobá, como autores do assassinato que chocou o país.

 Reprodução
A VÍTIMA
Isabella Nardoni, assassinada aos 5 anos. O pai e a madrasta continuam presos

Enquanto investigava a morte da menina, Renata lembrou outro crime de grande repercussão, que ela também atendeu. Estava de plantão na Divisão de Homicídios, em 2002, quando uma informação chegou: o empresário Manfred von Richthofen e sua mulher, Marísia, tinham sido mortos a pauladas enquanto dormiam, numa casa de classe média alta no Brooklin. Antes de ir à delegacia, a jovem filha do casal se dera ao trabalho de examinar o escritório do pai, na casa, e de constatar que um exato valor em dólares sumira. (O caso depois passaria para a equipe da região.) Renata estranhou a falta de sensibilidade da moça – que seria condenada, com o namorado e o irmão dele, pelo assassinato dos pais.

No caso Isabella, a sensação se repetiu. Em sua entrevista a ÉPOCA, Renata lembrou a longa conversa que teve com o casal Anna e Alexandre, nas primeiras horas da investigação. Apesar de ter notado que Anna era falante e articulada enquanto Alexandre era bem menos eloqüente, Renata notou uma incomum tranqüilidade nos dois, “a ponto de o Alexandre comentar ‘Olha, eu vou sair na Rede Globo’”. Alexandre e Anna, segundo Renata, não se emocionavam nem se preocupavam em saber o que acontecera. O discurso de ambos era o mesmo. Não tinham perguntas, mas respostas. “Eles não questionavam. Vinham com uma certeza, uma afirmação: ‘O que aconteceu foi isto’. Em momento algum perguntaram ‘por que alguém jogou a minha filha?’” Diziam que um ladrão entrara no apartamento deles, com uma cópia da chave. “Falavam ‘o ladrão chegou, o ladrão cortou a tela’, usavam a palavra ‘ladrão’”. O “ladrão” teria esperado até Alexandre chegar, com a menina dormindo, e deixá-la em sua cama. O pai teria então voltado ao carro, na garagem, para pegar os dois outros filhos pequenos e Anna. Nesse meio-tempo, o “ladrão” teria esganado Isabella, apertando-lhe o pescoço, e teria jogado a menina pela janela. E ainda teria trancado a porta ao sair. Por quê?

A pergunta atormentaria Renata durante os dias seguintes. “Eu estava analisando tudo, para começar a confirmar ou descartar fatos”, diz Renata. Ela chegara à 9ª Delegacia às 20 horas do sábado. Com a morte da menina, só daria o plantão por encerrado às 3 horas da madrugada da segunda-feira. Foi para casa com uma forte suspeita: Alexandre e Anna eram os autores do crime. “Forte suspeita, mas aberta a todas as possibilidades. Porque, afinal, estávamos no começo de uma investigação. Muita gente precisava ser ouvida, haveria o resultado das perícias. Nada era descartável”.

Mastrângelo Reino
OS SUSPEITOS
Anna Carolina e Alexandre quando foram presos pela segunda vez. A delegada diz que a suspeita já pesava sobre eles no início da investigação

Não era o primeiro caso de Renata com o assassinato de crianças. Em 2005, parentes da menina Ana Beatriz, de 4 anos, começaram a notar que ela andava sumida. O padrasto da menina, o advogado Fernando Fortes Lopes, e a mãe, Jaqueline, davam desculpas inverossímeis. Um dia, Fernando disse que a menina fora seqüestrada. Não tinham feito nem boletim de ocorrência. Renata começou a investigar. A irmã de Ana Beatriz, de 8 anos, acabou contando que Fernando levara a menina. Descobriu-se que ele deixara Ana Beatriz uma semana de castigo, trancada no lavabo. Ele maltratava as filhas, se descontrolava por qualquer “malcriação”. No dia em que tirou a menina do castigo, se descontrolou, espancou-a até a morte. Renata conseguiu sua prisão temporária. Fernando acabou confessando. O corpo de Ana Beatriz foi encontrado num lixão, em Itaquaquecetuba. No caso Isabella, o cadáver estava lá – estendido no chão.

Renata gosta de investigar assassinatos. No ano em que trabalhou na Divisão de Homicídios, a seu pedido, chegava a atender seis casos num só plantão. Aprendeu a conhecer a reação dos parentes das vítimas. “Na primeira hora depois do crime, o comportamento é de choque ou questionamento, não de investigação”, afirma. Na primeira conversa, ela viu que Alexandre e Anna queriam convencê-la da existência de uma situação que os excluísse de suspeita. “Eles falavam, e eu ponderava: ‘Por que um ladrão vai jogar uma criança da janela?’”. O diálogo prosseguiu. Aqui, ele é reproduzido de acordo com o relato da delegada:

– Se o ladrão percebe que o morador chegou, a primeira coisa que faz é fugir do local. Por que despertar uma criança que estava dormindo e jogar pela janela? – questiona Renata.

– Ela pode ter acordado – diz o pai.

– Se ela acordou, ele sai correndo. Uma criança de 5 anos não vai conseguir segurar um ladrão.

– Então ela pode ter reconhecido ele.

– Nesse caso, por que criar tanta dificuldade? Se ele tem uma faca, dá uma facada. Sabendo que o pai ia à garagem e voltava, o que demora dois minutos, ele não teria todo esse trabalho de procurar a tesoura, a faca, asfixiar a menina, jogar, guardar a faca e a tesoura, sair e ainda trancar a porta.

O casal admitiu, diz a delegada, que nada fora levado do apartamento. E passou para outra hipótese: vingança.

– Vocês têm inimigos, estão sendo ameaçados, fizeram alguma coisa que justificasse uma vingança?

– Não – diz Anna –, mas ontem o zelador do prédio ficou olhando de uma maneira estranha para a Isabella e para mim.

– Mas isso será um motivo?

– Há também um pedreiro que veio instalar uma antena, o Alexandre não deixou ele entrar e ele achou ruim – afirma Anna.

O casal, diz a delegada, também tentava apontar um suspeito: o porteiro do prédio.

Renata chegara à Rua Santa Leocádia, no bairro do Carandiru, pouco depois da 1 hora do domingo 30 de março. A rua estava ocupada por 11 viaturas da Polícia Militar. Os moradores e vizinhos do Edifício London, de onde a menina fora jogada, juntavam-se às dezenas na calçada. Renata entrou no prédio. A menina, que caíra em um gramado ainda com vida, já havia sido levada. O resgate chegara 15 minutos depois da queda. Acompanhada de um PM, Renata subiu ao 6o andar. Entrou no apartamento 62. O PM chamou sua atenção para duas ou três gotinhas de sangue, no chão da sala. Elas faziam um trajeto da entrada até o sofá. No corredor, em direção ao quarto mais próximo, outras gotinhas de sangue. Mais sangue estava num lençol, no quarto. Sobre a cama próxima à janela, uma marca de sola do sapato de um adulto. A tela de proteção da janela estava cortada. Nela havia uma mancha quase imperceptível de sangue.

A delegada procurou um “instrumento cortante”, que poderia ter sido usado na tela. Não achou. Quem cortou a tela teria levado o instrumento? Jogado pela janela, ele não fora. Vistoriando o apartamento, encontrou na cozinha, em cima da pia, uma tesoura de cortar frango e uma faca, grande. As peças foram apreendidas. Na tesoura, a perícia acharia um fragmento de fio igual ao da tela cortada do quarto.

Quarenta minutos depois, já de saída do prédio, a delegada conheceu o pai da menina, Alexandre Nardoni, e o pai dele, Antonio. Voltavam da Santa Casa, para onde Isabella fora levada – e chegara morta. Antes de qualquer cumprimento, Alexandre perguntou para a delegada se o ladrão já havia sido encontrado, ou suas impressões digitais. Renata conversou rapidamente com ele. Havia muita gente em volta.

Do local do crime, a delegada foi para a Santa Casa. O corpo da menina estava no necrotério. Renata analisou os ferimentos, superficialmente. Havia um corte na testa, do qual pingara o sangue no apartamento. “Isabella parecia um anjinho dormindo. Naquele momento senti o tamanho do problema que tinha em mãos”, diz Renata. No Instituto Médico-Legal (IML), os legistas tentavam desvendar um enigma: a criança morrera ao ser jogada de 20 metros de altura, mas tinha sinais de asfixia.

Os legistas encontraram sinais de esganadura (comuns quando o pescoço é apertado por mãos). A pressão sobre um nervo do pescoço (o vago) desacelera o batimento cardíaco, deixa a vítima inconsciente, pode provocar convulsão e vômito (havia vômito no pulmão de Isabella, que ela aspirou) e levar à morte. A delegada diz que não há um laudo oficial com a comprovação de que uma mão feminina, neste caso da madrasta, tenha asfixiado Isabella. No relatório do inquérito sobre o caso, Renata conclui que foi Anna quem apertou o pescoço de Isabella. Mas baseia-se em depoimentos de testemunhas.

Um morador de um prédio vizinho disse ter ouvido uma criança gritar, no apartamento do casal: “Papai, papai, papai, pára”. Pareceu, ao depoente, que a criança não mandava o pai parar, mas o chamava, como um pedido de socorro. E dizia “pára” a outra pessoa. Dois dias depois, a delegada localizou outra vizinha, que ouvira os mesmos gritos de criança chamando pelo pai. As duas testemunhas dos gritos não se conheciam. “Uma pessoa idônea, com credibilidade, pode às vezes se deixar influenciar, ou se confundir, num cenário trágico como esse”, diz Renata. “Mas, quando vi duas pessoas que não se conheciam falando a mesma versão, não tive mais dúvidas”. Concluiu que Pietro, o filho de 3 anos, chamava o pai, porque Anna estava esganando Isabella. É o que diz também nas conclusões do inquérito. Foi naquele momento que a delegada decidiu pedir a prisão temporária do casal.

Outro fato contribuiu para a decisão de Renata. Dois dos moradores do prédio afirmaram, em depoimento, ter ouvido o casal discutir no apartamento, nos minutos que antecederam a queda da menina. Disseram que Anna falava muito alto, muitos palavrões. Depois que Isabella caiu, ouviram a mesma voz, falando palavrões pelo celular, no térreo. “Se Alexandre e Anna entraram no apartamento quando Isabella já tinha caído, como explicam a discussão entre eles e os gritos da criança chamando o pai?”

 Reprodução
MÃE E FILHA
Ana Carolina de Oliveira, com a filha que perdeu nas mãos do ex-marido. Esse não foi o primeiro caso da delegada envolvendo crianças. Mas foi o que ganhou a maior dimensão

Na madrugada da quarta-feira, o quarto dia de investigação, ela fundamentou seu pedido de prisão temporária do casal. “Eu me convenci de que era o momento, a investigação já estava bem consubstanciada.” As evidências mostravam que Isabella fora agredida ainda no carro, a caminho de casa. Ficara com um corte na testa, que sangrava. Ao chegar, Alexandre a carregara no colo, pressionando sua boca, para que não gritasse. No apartamento, a jogara no chão, ao lado do sofá. Aí a menina foi esganada, provavelmente por Anna. E lançada da janela, provavelmente por Alexandre. Os peritos constataram que a marca de calçado, sobre a cama encostada à janela, é da sandália “preta, tamanho 41, modelo havaianas” de Alexandre. Em sua camiseta, foram encontradas marcas em forma de losangos, deixadas pela tela de proteção, “quando segurava a filha pelas mãos, no momento em que foi precipitá-la”. Na noite da quarta-feira, a Justiça decretou a prisão do casal. Nove dias depois, o Tribunal de Justiça mandaria soltá-los.

Naqueles dias, Renata trabalhava muito além do expediente. Dormia três a quatro horas por noite. Numa dessas esticadas, estava na alça da Avenida 23 de Maio, para pegar a Avenida Paulista, quando o vidro direito de seu carro estilhaçou. Era meia-noite. Um assaltante quebrara o vidro com uma pedra e pegara um envelope, no banco. Ali estavam peças do inquérito. A delegada disputou o envelope com o bandido. Feriu a mão, mas conseguiu salvá-lo.

Sem falar com a imprensa, Renata se trancava em sua sala, com um retrato de Isabella sobre a mesa. Para chegar à delegacia, parava antes num posto de gasolina. Falava ao celular, e um carro vinha apanhá-la. Com 1,74 metro de altura, ela se escondia deitando-se no banco de trás. Entrava no prédio por uma porta lateral. “Se eu falasse passo a passo o que já sabia, prejudicaria a investigação. Nem os policiais da delegacia tinham ciência”. Ela diz que não lia sobre o caso nos jornais nem acompanhava o noticiário na TV. “Não queria me deixar influenciar”. Renata achava que ficaria tentada a explicar informações imprecisas e que isso desviaria seu tempo da investigação. Divulgou-se, por exemplo, que uma tia de Isabella, ou um dos avôs, entrou no apartamento antes da perícia e limpou o sangue. Isso seria impossível, diz Renata, porque a Polícia Militar chegou quase imediatamente depois da queda e, desde então, preservou o lugar. “Quem limpou o sangue foi o casal, antes de atirar a menina pela janela”, afirma.

As investigações prosseguiam. “Chegavam denúncias anônimas sem coerência, mas a gente ia atrás, checava, ouvia a pessoa para esgotar todas as possibilidades”. No inquérito, havia outros depoimentos que comprometiam Alexandre e Anna. O porteiro Valdomiro da Silva Veloso foi o primeiro a ver o corpo de Isabella caído sobre o gramado. Ouviu um baque, abriu a janela da guarita e deparou com aquela cena. Ligou para Antonio Lúcio Teixeira, que mora no 1º andar. Este saiu à sacada de seu apartamento e viu a menina. Chamou o 190, do Copom, o Centro de Operações da Polícia Militar. Ainda estava falando quando Alexandre surgiu no térreo, gritando sobre um ladrão no apartamento. Por isso, Antonio Lúcio pôde acrescentar na conversa com o Copom o detalhe de que havia um ladrão e dizer que a menina caíra do 6º andar (sabia o andar de Alexandre). O telefonema ficou registrado. Calcula-se que a menina tenha sido jogada por volta de 23h49m. Às 23h49m59s, Antonio Lúcio começou a falar. Momentos depois Alexandre surgiu no térreo, gritando.

Alexandre e Anna afirmavam ter descido juntos do apartamento, ao ver que Isabella tinha caído. Mas confirmou-se o seguinte: Antonio Lúcio ainda estava falando com o Procom quando Anna, do apartamento, ligou para seu pai. Treze segundos depois, nova ligação, agora para o pai de Alexandre. Quando Antonio Lúcio terminou de falar, ela continuava ao telefone, no apartamento. Alexandre já estava no térreo. Para Renata, o casal poderia estar tramando um ardil contra o porteiro Valdomiro.

"Para ter forças, ficar sem dormir e seguir investigando,
eu pensava na mãe que não podia beijar sua filha"

Renata volta a lembrar a primeira conversa com o casal, no domingo depois do crime. Diz que Alexandre e Anna falaram muito sobre Valdomiro. Perguntavam se ele já tinha sido investigado. “O Alexandre já chegou à portaria gritando ‘tem um ladrão, tem um ladrão’ e mandando o porteiro subir ao apartamento”, diz Renata. “O Antonio Lúcio disse para ele: ‘Não saia aí da guarita’. Se tivesse subido, o que estava disposto a fazer, Valdomiro teria encontrado Anna e de alguma forma poderiam tentar vinculá-lo ao crime”.

Nessa primeira conversa, já havia uma questão em aberto: o horário. Se Alexandre deixou Isabella no apartamento, voltou para o carro, retornou com Ana e os dois filhos e viu que a menina fora jogada, deixou muito pouco tempo para um estranho agir. Alexandre alegou que ficaram alguns minutos dentro do carro, na garagem, porque havia ali outro carro, com som alto, que poderia acordar as crianças. “Eles foram aumentando esse período para dar tempo de o suposto estranho fazer alguma coisa”, diz Renata.

Mais tarde, ao depor no inquérito, o casal calculou ter gasto 19 minutos entre sua chegada à garagem e a entrada de toda a família no apartamento. O carro de Alexandre, no entanto, tinha monitoramento por satélite. E esse sistema registrou a hora exata em que o motor foi desligado: 23h36m11s. O telefonema de Antonio Lúcio para a PM, falando da queda de Isabella, foi às 23h49m59s. Portanto, entre a chegada e a queda da menina transcorreram 13 minutos e 48 segundos.

Outra questão: a chave usada pelo suposto ladrão ou vingador para entrar no apartamento. Moradoras do prédio disseram a Renata que Alexandre falara em arrombamento da porta (que estava intacta, como a perícia constataria). Na delegacia, o casal falou na cópia da chave que existiria na portaria. O apartamento é novo, foi entregue em setembro do ano passado. O casal trocou portas e fechaduras, estas pelo modelo tetra, de quatro gomos. Os técnicos que fizeram o serviço, chamados a depor, confirmaram o trabalho. Cópias das chaves só haviam ficado na portaria enquanto os apartamentos não estavam ocupados. Depois, não. No fim da investigação, Anna Jatobá deu outra versão: tinha perdido a chave. E o assassino a teria achado.

O sangue que Renata não viu, ao vistoriar o apartamento no primeiro dia, apareceu quando os peritos usaram um reagente químico, chamado bluestar. Com ele, tornaram-se visíveis uma mancha de sangue perto do sofá e o sangue numa fralda que fora lavada e estava num balde. A delegada diz que a peça foi usada para limpar o apartamento ou estancar o sangue da testa da menina, no trajeto do carro para a moradia. “O sangue no apartamento foi suficiente para provar que era de Isabella”, diz Renata. Pelo mesmo processo, foram detectadas gotas de sangue com o perfil genético da menina no carro de Alexandre. Ali foi encontrado material genético de outras pessoas da família, que poderia ser vômito ou saliva das crianças. Mas só Isabella teve sangramento. “Por isso, posso afirmar que o sangue é dela”.

No começo das investigações, Renata não esperou pelos laudos. Foi direto aos peritos. “Fiz várias reuniões com eles. Estive no IML e saí às 3 horas manhã”. Eram seis médicos, cada um explicando conclusões ligadas a sua especialidade. “As provas convergiam, uma encaixava na outra”, diz Renata. Os peritos concluíram que Alexandre entrou no apartamento com a filha no colo, sangrando, e a atirou no chão, junto do sofá. As manchas de sangue da entrada da sala até o sofá são compatíveis com essa situação.

Sobre o ferimento na testa: a menina viajava atrás do pai, que dirigia, com Anna no banco a seu lado. Renata concluiu que foi Anna quem acertou a menina na testa, erguendo o braço esquerdo. Uma hipótese é que tenha usado a chave tetra do apartamento – compatível com o ferimento. Isabella também tinha lesões na parte interna da boca e nos lábios. Sinal de que alguém comprimiu sua boca com força. Concluiu-se que Alexandre fez isso para impedir que Isabella chorasse alto ou gritasse enquanto a levava, no colo, para o apartamento.

Em 29 de abril, Renata Pontes terminou o inquérito e pediu a prisão preventiva do casal. Alexandre e Anna estão presos, à espera de julgamento. O advogado do casal, Marco Pólo Levorin, acusa a polícia de ter “criado e imaginado” os fatos e de ter sido tendenciosa. Diz deduzir, de um laudo oficial, que Isabella não foi esganada e que a asfixia deveu-se à queda. Afirma existir outro laudo, segundo o qual Alexandre não poderia, sozinho, ter jogado a menina pela janela. “Os fatos não poderiam ter ocorrido como foram demonstrados”, afirma. Para ele, a perícia oficial só comprovou a existência de sangue humano em quatro peças de roupa, o que exclui o apartamento, o carro e a fralda lavada. As peças, diz Levorin, são a calça de Isabella, uma blusa feminina, uma bermuda e uma camiseta de manga longa, encontrada no apartamento vizinho. Para ele, a camiseta “é da terceira pessoa”, o autor do crime. Levorin diz que não foram investigadas “possíveis rotas de fuga” dessa terceira pessoa. Afirma ter provas de que uma casa, que dá para os fundos do prédio, foi arrombada na noite do crime. Diz ainda que a polícia não investigou funcionários e prestadores de serviço do prédio.

Com o fim do inquérito, a foto de Isabella saiu da mesa de trabalho de Renata – e foi para seu apartamento. “A foto era para me dar motivação. Para ter forças, ficar sem dormir e seguir investigando, eu pensava na mãe que não podia mais beijar sua filha”. Pediu à mãe da menina, Ana Carolina de Oliveira, fotos para colocar no inquérito. A professora Paula Cristiane de Aquino, da Escola Isaac Newton, onde Isabella estudava, levou cerca de cem fotos. Nesse dia, Renata, que é solteira, se emocionou. Colocou no inquérito 20 fotos de Isabella. A primeira é do dia do nascimento. A última, da menina morta.

O crime e a investigação
Isabella, de 5 anos, foi arremessada pela janela do apartamento do pai. Ele e a madrasta da menina são acusados de homicídio
29 MAR 2008
Isabella morre depois de ser jogada pela janela do apartamento do pai, no 6º andar, de um prédio em São Paulo
3 ABR 2008
Alexandre Nardoni, pai de Isabella, e a madrasta, Anna Carolina Jatobá, se entregam depois que a prisão deles é decretada
11 ABR 2008
Alexandre e Anna Carolina são libertados. A Justiça considera não haver motivos para manter a prisão temporária
18 ABR 2008
Depois de prestar depoimento, Alexandre e Anna Carolina são acusados formalmente pelo assassinato
20 ABR 2008
O pai e a madrasta de Isabella dão entrevista ao programa Fantástico. Ambos negam ter matado a menina
Marlene Bergamo
27 ABR 2008
Peritos fazem a “reprodução simulada” do crime no prédio onde Isabella foi assassinada. Os acusados não participam
30 ABR 2008
A polícia entrega à Justiça o inquérito sobre o crime. Ele conclui que Anna Carolina e Alexandre mataram Isabella
6 MAIO 2008
O Ministério Público denuncia os acusados pelo homicídio. Anna Carolina teria asfixiado Isabella. Alexandre a teria atirado pela janela
Grizar Jr.
7 MAIO 2008
Anna Carolina e Alexandre voltam à prisão depois de o juiz Maurício Fossen acatar a denúncia do MP contra o casal
16 MAIO 2008
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) nega o pedido de liberdade provisória ao casal
26 MAIO 2008
Peritos contratados pela defesa de Alexandre e Anna Carolina alegam que os laudos produzidos pela polícia são falhos
27 MAIO 2008
A quinta turma do STJ nega, por unanimidade, novo pedido de habeas corpus para Anna Carolina e Alexandre
17 JUN 2008
Testemunhas de acusação prestam depoimento. O casal comparece à audiência com uniforme da cadeia e algemas
2 JUL 2008
Testemunhas de defesa começam a ser ouvidas no Fórum de Santana, na zona norte de São Paulo
Grizar Jr.
5 AGO 2008
O Supremo Tribunal Federal mantém a prisão do pai e da madrasta de Isabella



29 agosto 2008

Deputado petista é acusado de chefiar uma milícia, e estudo confirma ação político criminosa de para-militares

Por Jorge Serrão

FONTE: Alerta Total

O Governo do Crime Organizado domina tudo mesmo. No Rio de Janeiro, entre janeiro 2006 e abril de 2008, foram registradas 1.549 denúncias de extorsão em áreas dominadas por milícias e mais de 500 acusações de homicídios. Os números da pesquisa “Seis por Meia Dúzia?”, um estudo coordenado pelo professor Ignácio Cano, confirmam a natureza violenta e o uso político desses grupos para-militares. O tipo de dominação que exercem é a negação da democracia.

Na “Operação Voto Livre”, deflagrada hoje, a Polícia Federal do Rio prendeu 11 pessoas acusadas de cometer crimes eleitorais, com a participação da “Liga da Justiça”, formada por milicianos na Zona Oeste da Cidade Maravilhosa. Além da candidata a vereadora Carminha Jerominho (PT do B), filha do vereador Jerominho, foram presos seis policiais militares. A PF procura por Luciano Guimarães, irmão de Carminha. Os detidos serão levados para o presídio de Catanduvas, no Paraná, pois a polícia acredita que do presídio do Rio eles podem continuar a se articular para cometer os crimes.

O superintendente da Polícia Federal, Jacinto Caetano, destacou o grupo usava da força para coagir os eleitores a votarem em Carminha. Algumas pessoas tiveram que deixar suas casas e duas sofreram tentativas de homicídio por não aceitarem votar na candidata. A Polícia Federal informou que o grupo mandou aumentar o preço da venda do gás em algumas comunidades para que o dinheiro fosse usado na campanha da candidata.

Ontem, o Ministério Público do RJ denunciou à Justiça o deputado e policial civil licenciado Jorge Luiz Hauat, o Jorge Babu, o primeiro petista acusado de chefiar uma milícia. Junto com o político que instituiu o Dia de São Jorge no Rio de Janeiro, outros dez foram processados. Entre eles o tenente-coronel da PM Carlos Jorge Cunha. Babu não foi preso porque só pode ser detido em flagrante, por causa da “imunidade parlamentar”. A acusação é embasada em interceptações telefônicas, autorizadas pela Justiça, que subsidiaram inquérito da Corregedoria da Polícia Civil.

O estudo acadêmico sobre as milícias revela que a intensidade do controle sobre a população, praticado por elas, é variável, dependendo de cada área. Em alguns lugares os milicianos atuam quase como um sistema de segurança privado, não interferindo na vida dos moradores de forma tão efetiva ou “desde que a ordem pública não seja ameaçada”. Mas algumas milícias restringem o direito de ir e vir dos moradores dos bairros onde se impuseram. Os moradores acabam impedidos de circular pelos “territórios” considerados inimigos. A pesquisa baseou-se em 248 matérias de jornais, 3.469 registros do Disque-Denúncia, além de 46 entrevistas com moradores de áreas onde as milícias atuam.

A CPI das Milícias na Assembléia Legislativa estima que existam hoje cerca de 150 milícias no estado do Rio de Janeiro. Quase sempre, seus integrantes podem ser identificados por um colete preto escrito “apoio”. No entanto, parte dos integrantes da milícia trabalha à paisana e se confunde com a população dos bairros. Em alguns bairros, os milicianos proibiram a população de usar roupas pretas, cor privativa dos integrantes do grupo.

A concentração é na cidade do Rio, mais especificamente na zona Oeste da cidade, ao longo da Avenida Brasil, da Linha Amarela e nas cidades mais desenvolvidas do interior do estado, principalmente do Sul Fluminense. A pesquisa abordou moradores de várias áreas, mas principalmente as que apresentaram maior número de denúncias contra a milícia no Disque-denúncia: Campo Grande, Anchieta, Canal do Anil (Jacarepaguá), Bangu, Campinho, Comendador Soares, Del Castilho, Guadalupe, Guaratiba, Itaguaí, Jacarepaguá, Paciência, Penha, Ramos, Santa Cruz, Sepetiba e Vila Kennedy.

27 agosto 2008

Pesquisa revela que maioria dos homens não beija durante o sexo

FONTE: Globo.com

Ele acelera o ritmo cardíaco, aumenta a temperatura da pele, queima em média 12 calorias, ativa 29 músculos e, quando muito intenso, estimula a produção de endorfina, a famosa substância química que dá a sensação de bem-estar. Essas são algumas das reações que o beijo produz no indivíduo, mas uma pesquisa feita no ambulatório de Sexualidade Humana da Clínica Delphos apontou que 70% dos 154 homens avaliados não beijam na boca durante o sexo.

O responsável pela análise é o sexólogo Amaury Mendes, que discutirá o tema na XVI Jornada Científica Delphos, no dia 6 de setembro, no Humaitá, Zona Sul do Rio. Mendes fez a pesquisa qualitativa com os pacientes de um ambulatório no Instituto Delphos, onde atende de graça a pessoas de baixa-renda, que ganham até três salário mínimos. As entrevistas foram feitas com os homens, a maioria na faixa dos 40 aos 60 anos, e com problemas sexuais como disfunção erétil, ejaculação precoce e falta de desejo.

“A conduta sexual humana deveria respeitar a seguinte ordem: desejo, excitação e, por último, orgasmo. Mas, com a supervalorização do orgasmo, a maioria pula a fase do desejo e vai direto pra a excitação. E aí não tem beijo, abraço, nem carinho. Só que eles se esquecem que o beijo é um fator essencial para se atingir o orgasmo”, diz o sexólogo.

Mendes ressalta que, apesar de o estudo ter sido feito com uma parcela da população com menor poder aquisitivo, esse problema também atinge as classes média e alta: “É fato que, quanto maior a renda e o grau de instrução, melhor o desdobramento desse assunto. Porém, o que está em jogo hoje é a questão da falta de tempo e a necessidade emergencial do orgasmo e isso atinge toda e qualquer classe”.


A falta de tempo é inimiga do orgasmo

O sexólogo explica que o estresse do dia-a-dia, as dificuldades financeiras e a correria do mundo moderno são fatores que impedem o homem de se dedicar à afetividade, às preliminares e, desta forma, o sexo se torna imediatista. A conseqüência é o afastamento dos casais. Segundo Mendes, o beijo é a base para a busca do prazer no sexo.

“O beijo está ligado aos nossos cinco sentidos - tato, olfato, visão, audição e paladar –, você olha nos olhos, vê a verdade no outro, cria um vínculo.”


Prostitutas não beijam

O sexólogo explica que, um bom exemplo de que o beijo representa um compromisso sério é: jamais ser incluído nos programas de prostitutas. Há cerca de um ano ele e sua equipe entrevistaram 28 garotas de programa na Avenida Atlântica, em Copacabana, na Zona Sul do Rio, e constataram o que já é lugar comum:

“Todas disseram que já aceitaram propostas bizarras, mas não aceitam dar beijo na boca. Muitas delas têm namorado ou tem filho e disseram que, nem pagando, dariam o beijo.”


Uma questão biológica

De acordo com Mendes, tanto a mucosa labial quanto a genital são enervadas pela medula. A primeira está mais próxima do cérebro e, por isso, recebe os estímulos sexuais de uma maneira mais eficaz. Ambas possuem o mesmo numero de terminações nervosas e, portanto, o mesmo potencial erótico.

“Nós fazemos um trabalho, com as pessoas que buscam a terapia sexual, para tentar um recomeço do namoro entre o casal. Claro que usamos medicamentos em alguns casos, mas idéia é que o remédio seja eliminado. Propomos exercícios específicos de sensualidade, procurando desvincular sexo de afeição e estimulando carinho, beijos e, conseqüentemente, a aproximação do casal.”

26 agosto 2008

Pelo ouro, Zé Roberto controlou até menstruação

FONTE: Revista Época

O técnico José Roberto Guimarães, medalha de ouro nos Jogos de Barcelona em 92 com a seleção masculina, parece ter desvendado o mistério e caminho que levaria a seleção feminina de vôlei até o ouro olímpico. Além de muito treinamento e trabalho psicológico, o treinador resolveu atacar também os hormônios, que costumam alterar, e muito, o humor das mulheres.
“Mulher é hormônio em ebulição. Então você tem que tomar cuidado em determinados momentos. A gente tentou fazer uma coisa aqui de adiantar algumas menstruações, atrasar outras, algumas deram certo, outras não. Teve um pouquinho de TPM (tensão pré-menstrual), o que não poderia deixar de ter. Mas o legal era que o grupo todo estava tranqüilo, sereno. Uma ou outra só que alterou de humor e ficou irritada, mas não passou disso”, disse o treinador, sem querer revelar o nome das jogadoras.

O método adotado funcionou e as meninas do Brasil venceram os Estados Unidos por 3 sets a 1 (parciais de 25/15, 18/25, 25/13 e 25/21), conquistando um título inédito para o Brasil. No vôlei feminino, o país havia conquistado apenas duas medalhas de bronze (Atlanta, 96 e Sydney, 2000).

“Este foi o trabalho mais difícil pra mim”, revelou. “Mulher tem que ser tratada de forma diferente. Elas são mais sensíveis. São muito ligadas a família, por exemplo. Não que os homens não sejam, mas os homens separam família do trabalho. A mulher leva a família com ela. Ela pode estar trabalhando, mas também está ligada no filho, como a Paula e a Carol estavam, então elas ficam o tempo todo a mil por hora pensando em tudo. Na casa, no marido que ficou, na mãe, no pai, no marido...”.

O treinador estava “engasgado” com o título desde os Jogos de Atenas (2004), quando a seleção feminina deixou escapar por muito pouco uma medalha. O time comandado por ele perdeu nas semifinais para a Rússia após ter tido cinco chances de encerrar a partida no quarto set. O Brasil vencia por 24 a 19, mas permitiu a virada das russas que dominaram o tie-break garantindo a vaga para a final.

“Eu me senti em débito com o povo brasileiro. Quando você está a um ponto e a bola não cai... Eu acho que eu sou um cara de sorte, um cara privilegiado porque tive uma oportunidade de refazer um trabalho, ou seja, de entrar num trabalho novo, de ter o apoio das pessoas, da Confederação (Brasileira de Vôlei), mesmo tendo perdido alguns jogos, mas acho que eu paguei com juros e correção monetária (risos). Vou voltar a sorrir porque eu fiquei muito triste naquela época”, disse.

“Eu já falei isso. Eu queria fazer um buraco e me enfiar dentro. Eu tinha vergonha de sair na rua porque aquilo foi muito forte. Eu me cobrava muito por não ter ajudado o time naquele momento, mas fico feliz porque eu tive outra oportunidade e agradeço a Deus por isso. Eu tinha deixado um pouco de mim naquela quadra de Atenas. Hoje eu resgato aqui em Beijing. Estou falando Beijing porque começa com B”, completou, entre risos.

Procuradoria pede ao STF para Daniel Dantas voltar à prisão

FONTE: Estadão

SÃO PAULO - A Procuradoria-Geral da República pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) nesta segunda-feira, 25, nova prisão do dono do Banco Opportunity, o banqueiro Daniel Dantas. Para o subprocurador-geral Wagner Gonçalves, a prisão preventiva, revogada pelo presidente do STF, Gilmar Mendes, deve ser revista pois "houve supressão de instâncias e ofensa à jurisprudência do próprio Supremo". O pedido foi feito à 2ª Turma do Supremo, a qual cabe referendar ou não a decisão de Mendes, e será analisado pelo ministro Eros Graus.

Dantas foi um dos presos da Operação Satiagraha, junto com o megainvestidor Naji Nahas e o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta. A Polícia Federal investiga crimes como lavagem de dinheiro e corrupção ativa. Todos os investigados estão soltos.

Veja Também:

linkEntenda como funcionava o esquema criminoso especial

linkAs prisões de Daniel Dantas

Gonçalves opinou, também, que a prisão tem de ser apreciada pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região, em São Paulo, excluindo, em conseqüência, o STF de apreciar a prisão preventiva. Se a 2ª Turma atender a esses pedidos, o subprocurador sugere que seja expedido mandado de prisão em "desfavor de Daniel Valente Dantas ou que se comunique o não referendo ou a exclusão ao juiz federal da 6ª Vara Criminal do Estado de São Paulo, para os devidos fins".

O habeas-corpus concedido a Daniel e Verônica Dantas era preventivo. Eles queriam ter acesso aos autos da investigação e evitar a prisão. Os pedidos foram feitos ao Tribunal Regional Federal da 3ª Região e ao Superior Tribunal de Justiça, que os negaram. Após isso, o habeas-corpus foi para o STF, e Mendes revogou a prisão preventiva. De acordo com Gonçalves, Gilmar Mendes teria que ter considerado prejudicado o habeas corpus por ter havido fato novo (prisão temporária), que não fora objeto do HC, nem fora apreciado pelo TRF da 3ª Região ou pelo STJ.

O sub-procurador afirma ainda que o mérito da prisão temporária está prejudicado, mas o da prisão preventiva, não. Segundo ele, houve elementos novos, como a apreensão de dinheiro na casa de Hugo Chicaroni, que seriam utilizados a título de propina para o delegado da Polícia Federal Victo Hugo. O suborno para livrar Dantas seria de US$ 1 milhão.

23 agosto 2008

O novo operador do orçamento

FONTE: Revista IstoÉ

O secretário nacional do PT, Romênio Pereira, é acusado de participar de quadrilha que desviou mais de R$ 700 milhões dos cofres público

"O REI DO GROTÃO" Encarregado de fazer a ponte entre prefeitos do PT e o governo, Romênio teve os sigilos telefônico, fiscal e bancário quebrados

Em abril passado, Romênio Pereira, secretário nacional do PT, articulou uma reunião de mais de 300 prefeitos do partido com os ministros Dilma Rousseff, da Casa Civil, e Paulo Bernardo, do Planejamento. No Hotel Nacional, em Brasília, eles foram informados sobre a melhor maneira de obter recursos do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, para seus municípios. Até a semana passada, deveria caber a ele repetir a cena quando a eleição deste ano chegasse ao fim. Mas antes mesmo que o PT possa contar o número de novos prefeitos, Romênio Pereira vai ter de responder por uma encrenca das grossas.

No próximo mês, o procurador-geral da República, Antônio Fernando de Souza, apresentará ao Supremo Tribunal Federal (STF) o resultado de uma investigação que atinge diretamente o secretário nacional do PT e vários deputados. Trata-se do resultado da petição 3683, que tem como apenso a petição avulsa 53976, que investiga a ação criminosa de deputados federais, lobistas, funcionários públicos e prefeitos que se locupletavam comercializando emendas parlamentares ao Orçamento da União. Segundo o Ministério Público, essa quadrilha teria desviado mais de R$ 700 milhões. É uma espécie de nova máfia do Orçamento, à semelhança do caso que há 15 anos resultou em acusações contra 15 parlamentares. Desses, seis foram cassados e quatro renunciaram. Detalhe: na antiga denúncia, apontou- se um desvio de R$ 101 milhões.

Com mais de dez mil páginas, 20 volumes, 80 gigas de memória em arquivos, o inquérito revela a radiografia de um sofisticado esquema criminoso que envolve 23 construtoras e 119 prefeituras espalhadas pelos Estados do Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Tocantins. Nas investigações, ficou comprovado que a quadrilha desviou verbas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e montou uma rede de informações privilegiadas, com participação de funcionários do Ministério das Cidades, Integração Nacional, Saúde e até do Tesouro Nacional.

A denúncia, que tramita em segredo de Justiça, é demolidora: "A execução do esquema delituoso passou a ser feita por grupos organizados nos moldes de verdadeiras organizações criminosas (...), unidos para a consecução do objetivo comum de promover o desvio de recursos públicos federais destinados aos municípios para o financiamento de obras públicas". A quadrilha, ainda segundo o inquérito, agia sob as ordens do lobista João Carlos de Carvalho, um empresário mineiro que ficou milionário com o esquema que funcionava há pelo menos sete anos na Esplanada dos Ministérios. No Congresso, seu principal elo era o deputado João Magalhães (PMDB-MG). No documento, obtido com exclusividade por ISTOÉ, aparecem os nomes de sete parlamentares. Além deles, o procurador também aponta o dedo para Romênio Pereira, como o suposto elo entre lobistas, prefeituras e o governo.

A escalada de Romênio Pereira no PT sempre deixou intrigada uma boa parte dos dirigentes históricos do partido. Afinal, ele nunca foi nenhum ideólogo, não teve participação nos movimentos sociais e muito menos militou na área sindical. Apesar dessa carência de credenciais, Romênio é um dos 12 integrantes da cúpula nacional. Era vice-presidente do partido até o ano passado. Se não tivesse havido intervenção no partido após a renúncia de José Genoino, durante a crise do Mensalão, há três anos, ele teria se tornado presidente do PT. Agora, como um dos nove secretários nacionais, tem a missão de facilitar o trânsito dos prefeitos do partido com os diversos ministérios, em busca de projetos e programas que melhorem a vida nos municípios. "O secretário de Relações Institucionais cuida da relação do partido com os prefeitos", diz Romênio. "Eu sou chamado no PT de Rei dos Grotões", emenda.



GRAMPEADO O prefeito Wanderley Souza foi pego pela PF com a boca na propina

Ao monitorar João Carlos de Carvalho, a PF descobriu que ele conversava seguidamente com Romênio. Entre os dias 13 de junho e 19 de novembro de 2007, período do monitoramento, foram sete encontros. "Primeiro, os encontros são sempre regulares, com espaço médio de 20 dias entre eles; segundo, sempre acontecem em locais seguros, na casa de João Carlos ou no gabinete de Romênio; terceiro, nunca é tratado no telefone o motivo desses encontros, o que indica a adoção de cautelas contra eventual escuta telefônica; quarto, há sempre referência nas conversas a "aquele amigo" ou "aquele meu amigo", a "acerto", técnicas de diá-logo utilizadas por quem quer ocultar eventual ilicitude dos seus atos", diz o documento do Ministério Público Federal. Procurado por ISTOÉ, Romênio diz nada saber sobre as referências a "um amigo", "aquele meu amigo" ou "acerto", captadas nas escutas telefônicas.

"A suspeita é de que ele atue politicamente para viabilizar, perante os ministérios e outros órgãos do governo federal, a rápida destinação dos recursos aos municípios e a celebração dos convênios", escreve o procurador-geral, na página 13 do documento. "Não fiz pedido a nenhum ministério para atender a qualquer demanda específica do João Carlos", rebate o dirigente do PT. Noutro trecho, Antônio Fernando de Souza é ainda mais contundente. "Não há razão lícita aparente que justifique os 'negócios' entre os dois interlocutores. João Carlos atua na área de construção civil, comandando um suposto esquema de fraudes em licitações com desvio de recursos públicos federais, enquanto Romênio é um articulador político do Partido dos Trabalhadores", escreveu o procurador, que continua: "Uma investigação mais apurada desse suspeito relacionamento entre o lobista João Carlos de Carvalho e o secretário nacional de Assuntos Institucionais do Partido dos Trabalhadores Romênio Pereira permitirá esclarecer as razões dos freqüentes encontros e se de fato Romênio Pereira seria a pessoa que proporciona a João Carlos os contatos necessários para viabilizar as fraudes investigadas." João Carlos não foi encontrado pela reportagem para comentar a denúncia.

Dentro da burocracia partidária, Romênio chama a atenção por uma característica peculiar: ele não usa computador e só escreve a lápis. Assim como o ex-tesoureiro Delúbio Soares e o exsecretário- geral Sílvio Pereira, defenestrados do partido depois do escândalo do Mensalão, Romênio construiu sua carreira partidária à sombra do poder. Mineiro de Patos de Minas, ele é irmão do deputado federal Geraldo Magela (PT-DF). Pragmático, o secretário nacional se declara um dos petistas mais abertos a ampliar alianças. Na cúpula, foi o único que apoiou abertamente a união do PT com o PSDB mineiro em apoio ao candidato do PSB, Márcio Lacerda, à Prefeitura de Belo Horizonte.

ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA Relatório do procurador-geral da República acusa parlamentares, prefeitos e funcionários públicos de fraudar obras públicas

A ISTOÉ, Romênio não negou a relação com o lobista João Carlos de Carvalho. "Eu só não sabia que ele era lobista." Romênio diz que conhece Carvalho há cinco anos. Foi apresentado a ele no aeroporto de Belo Horizonte, antes de um vôo para Brasília, pelo ex-prefeito de Governador Valadares João Fassarella, morto em 2006. "Ele nos viu conversando e se aproximou. A partir daí, começou a procurar ter encontros comigo", diz. Segundo Romênio, depois do terceiro encontro, ele perguntou o que, afinal, Carvalho queria com ele. "Sou um pequeno empresário na área de projetos. Quero que você me apresente a prefeitos", disse o lobista, de acordo com o relato de Romênio. Nesse caso, Carvalho tinha ido ao endereço certo. "Mas eu não me lembro de ter indicado qualquer prefeitura para favorecer o João Carlos", defende-se Romênio.

Como, então, explicar tantos encontros, até com o convite, aceito, para que Romênio almoçasse em Belo Horizonte na casa de Carvalho, num apartamento avaliado em quase R$ 2 milhões? "Ele parecia um homem simples, simpático. Estabeleceu- se uma boa relação, uma relação de um quadro político com um pequeno empresário", diz Romênio. De qualquer modo, numa das conversas grampeadas, Carvalho reclama que o diretor de produção habitacional do Ministério das Cidades, Daniel Vidal Nolasco, "não está ajudando nada". Romênio dá uma explicação: "Ele, de fato, uma vez me perguntou se eu conhecia alguém no Ministério, eu conhecia o Daniel". Em outra conversa captada, a PF diz que Romênio disse a Carvalho que Nolasco queria falar com ele. "Não me lembro disso", defende-se Romênio. "De tudo, porém, estou seguro de que não há nada que me comprometa com esse rapaz", diz o dirigente, referindo- se a Carvalho.

A etapa inicial da investigação sobre esse novo escândalo do Orçamento resultou na Operação João-de-Barro, que promoveu a prisão de prefeitos, empreiteiros e lobistas de Minas Gerais e apontou o envolvimento direto dos deputados mineiros João Magalhães (PMDB) e Ademir Camilo (PDT). Ambos estão sendo investigados pela Corregedoria da Câmara dos Deputados, em processos que podem resultar na cassação dos seus mandatos. As prisões e outras providências pedidas no dia 11 de junho pelo procurador- geral da República, Antônio Fernando de Souza, ampliaram as informações obtidas pela Polícia Federal. O que vai surgir agora concentra- se principalmente nas investigações que resultaram dos "Autos Apartados em Petição 3683", em que Antônio Fernando de Souza encaminha ao Supremo detalhes das investigações que estão em curso. O relatório identifica o nome de outros três parlamentares mineiros, além de Magalhães e Camilo, que apareceram nas escutas telefônicas: José Santana de Vasconcelos Moreira (PR), Jaime Martins Filho (PR) e José Miguel Martini (PHS). E menciona outros dois, também de Minas, cujas emendas orçamentárias teriam sido usadas pelo esquema: Leonardo Monteiro (PT) e Carlos William (PTC).

MENTOR Magalhães é acusado de ser o líder da quadrilha

Segundo a denúncia do procuradorgeral da República, o esquema funcionava da seguinte forma: primeiro, o deputado indicava os municípios e os valores para a liberação de verbas, utilizando emendas do Orçamento de sua autoria ou de terceiros. Feito isso, a quadrilha passava para a segunda etapa do crime, que é a assinatura dos convênios. Nesse momento, a elaboração dos projetos ficava a cargo do lobista, que também se encarregava de acompanhar sua aprovação. Quando o empenho (a garantia da futura liberação do dinheiro) era assinado, o prefeito pagava um percentual (entre 10% e 12%) para Carvalho. Caso se recusasse a pagar, Carvalho tinha o poder de conseguir o direcionamento da verba para um outro município.

Um caso emblemático é narrado nos documentos obtidos por ISTOÉ. Em um deles, o prefeito petista da cidade mineira de São Félix de Minas, Wanderley Vieira de Souza, conversa com a assessora de Magalhães, Mary Lanes, sobre como deveria fazer para pagar a propina. A assessora oferece a sua própria conta bancária para que o prefeito faça o depósito:

- Deixa eu te falar, você não me ajeita uma conta para fazer a transferência daquele dinheiro, não? - pergunta o prefeito.

- Transfere para a minha conta, então - sugere Mary Lanes.

Numa conversa posterior, Mary Lanes indica a Wanderley uma conta num banco.

- Beleza! Vem cá, eu coloco é 39 ou 40 mil? - pergunta o prefeito.

- Quarenta. Fechado - responde Mary.

- Então, é 11%, né, danada? - completa Wanderley.

No depoimento que prestou à comissão de sindicância criada pelo corregedor- geral da Câmara, Inocêncio Oliveira (PMDB-PE), para investigar seu caso, o deputado Magalhães indicou que novos nomes apareceriam na investigação da complexa trama que o esquema de desvio de verbas criou. "Ele, que teve acesso a todo o processo, nos disse que há vários envolvidos e que a conclusão da investigação iria demorar", disse à ISTOÉ um dos assessores da comissão de sindicância. Encontrar os demais envolvidos e as suas conexões é a tarefa em que se debruçam agora a PF e o Ministério Público Federal. No caso específico de Romênio, para tanto, o ministro do STF, Cezar Peluso, responsável pelo inquérito no Supremo, autorizou as quebras dos seus sigilos telefônico, bancário e fiscal, já que "foram, ademais, captados, nas interceptações, diálogos que comprovariam o envolvimento, no esquema, de Romênio, sob a suspeita de que atuaria politicamente para viabilizar, perante os Ministérios e outros órgãos federais, a rápida assinatura de convênios e a destinação dos recursos aos municípios...". Procurado por ISTOÉ, o deputado Magalhães disse que estava impedido por seus advogados de falar. "Eu só posso dizer que não tenho nada com isso e vou mostrar que sou inocente", disse.

DEPUTADO ACUSADO DE ROUBAR DEPUTADO
Os novos anões do Orçamento não perdoam nem os colegas

USADO "Eu sou vítima", diz Monteiro

Vem de um procurador ouvido por ISTOÉ a mais curiosa revelação do esquema dos novos "Anões do Orçamento". "Apuramos que um deputado roubou dinheiro de outro deputado", revela ele, que participou das investigações. Essa ação inusitada foi possível porque o esquema mantinha um monitoramento constante da execução orçamentária. Assim, sabia qual deputado solicitara verba para tal cidade. A rede montada pelo esquema agia, então, para acelerar a liberação, e acertava o convênio com o prefeito, muitas vezes sem que o deputado autor da emenda soubesse o que estava acontecendo. Na página 29, do volume 14, a transcrição de um grampo telefônico deixa clara essa estratégia. Tratase de uma conversa, no dia 14 de julho de 2007, entre o deputado João Magalhães e sua assessora Mary Lanes: "A gente belisca nas outras... Aqui, o negócio do Leonardo é só nós dois, ninguém sabe não, tá? O negócio do Leonardo, os 10% dele é meu e seu, ninguém sabe disso não", diz Magalhães.

Segundo um dos procuradores que trabalham na investigação, Leonardo no caso é o deputado federal Leonardo Monteiro, do PT. "Eu não sei se o Leonardo que o João Magalhães cita sou eu mesmo, mas isso tudo aí é muito estranho", defende-se Leonardo. "Se isso aconteceu de fato, então eu sou vítima." O deputado José Miguel Martini (PHS), também citado no relatório, é mais incisivo. "Eu fui usado por esse esquema", reclama. No caso, João Carlos de Carvalho telefonou para o gabinete de Martini na Câmara e converconversou com um assessor do deputado, Cláudio de Faria Maciel. Depois de um entendimento prévio, Carvalho indicou ao assessor que apresentasse uma emenda ao Ministério das Cidades, para calçamento de ruas, no município mineiro de Dom Joaquim.

"Esse sujeito procurou o gabinete dizendo que tinha espaço político e poderia ajudar a liberar emendas. Eu não o conhecia. Então, para iniciar uma relação, eu orientei meu assessor a indicar uma emenda de valor baixo, apenas para ver o que acontecia", explica Martini. "Eu pessoalmente não falei com ele, não conheço o sujeito, não sabia que era lobista. A gente recebe ligação de um monte de gente sem saber quem é. Eu não tenho bola de cristal", defende-se. Martini afirma que, depois que Carvalho foi preso na Operação João-de-Barro, ele solicitou aos Ministérios que cancelassem todas as suas emendas orçamentárias.

A Polícia Federal suspeitava que a emenda de outro deputado também tivesse sido usada da mesma forma pelo esquema. No caso, o deputado Carlos William. Mas ele mesmo deu à ISTOÉ outra explicação. "O pessoal do meu gabinete não tem muita experiência com orçamento. Então, como eles têm amizade com o pessoal do gabinete do João Magalhães, pedem para eles acompanharem a execução das nossas emendas", disse William. Com a conclusão da PF e do Ministério Público de que Magalhães era um dos comandantes do esquema, foi como pedir à raposa que tomasse conta do galinheiro.

21 agosto 2008

CCJ do Senado aprova regra para uso de algemas

FONTE: Estadão

Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou ontem um projeto de lei para regulamentar o uso de algemas no País. O texto especifica os casos em que a prática será considerada abusiva, fixa a obrigatoriedade do registro escrito que deverá ser feito pelas autoridades que utilizá-las e relaciona as punições a que se sujeitarão os que desobedecerem a lei.

O senador Demóstenes Torres (DEM-GO), autor do projeto, disse que as normas vão se adequar ao conteúdo da súmula do Supremo Tribunal Federal (STF), aprovadas na semana passada, endurecendo as regras. O projeto deverá ser votado no plenário do Senado e na Câmara, antes de ser encaminhado à sanção presidencial.

Demóstenes excluiu do projeto oito casos em que as algemas poderiam ser adotadas. Conforme lembrou o senador, o projeto original detalhava situações em que o uso era permitido, mas apresentavam lacunas que poderiam ser usadas contra a ação da autoridade policial, o que gerou diversas manifestações de integrantes do Ministério Público, da magistratura e da Polícia Federal.

Um desses casos, explicou, é a prisão de algum lutador de artes marciais ou a de alguém com condições de agredir os agentes policiais. Ele citou, como exemplo, o caso de uma idosa presa em sua casa pela Polícia Federal, por fraude no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que tentou reagir jogando uma panela cheia de água quente no rosto do policial.

"Em vez de disciplinarmos as situações em que o preso pode ser algemado, especificamos os casos de abuso", afirmou. "Em vez de dizermos quando a algema pode ser utilizada, dizemos quando não pode e dessa forma mantemos o espírito original do projeto, de 2004, que se coaduna com a súmula do STF."

O relator as emendas, senador Antonio Carlos Valadares (PSB-SE), incluiu no seu parecer a informação de que a decisão do STF foi apelidada por juízes de "Súmula Cacciola-Dantas", pelo fato de o tribunal ter se dedicado ao tema após a prisão dos banqueiros Salvatore Cacciola e Daniel Dantas.

"Do ponto de vista oficial o motivo foi outro", garantiu Valadares, referindo-se à anulação do júri presidido pela filha do ministro do STF, Cezar Peluso, juíza Glaís de Toledo Piza Peluso, que condenou a 13 anos e meio o pedreiro Antonio Sérgio da Silva, por homicídio, após ele ter permanecido algemado durante todo o julgamento.

Os senadores Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) e Wellington Salgado (PMDB-MG) votaram contra as emendas. Jarbas por considerar "inconcebível" prender alguém que não ofereça resistência e Wellington, por preferir a decisão do Supremo.

RESISTÊNCIA

Um dos principais críticos do uso generalizado de algemas em operações da Polícia Federal, o presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, foi o grande motivador da discussão. Em debate promovido pelo Estado no dia 4, em meio à repercussão da Operação Satiagraha - na qual a PF prendeu e algemou Dantas, o ex-prefeito Celso Pitta e o investidor Naji Nahas - Mendes declarou: "A prisão, em muitos casos, só se justifica para fazer a imagem e a imagem com algema. Prender é algemar e expor no Jornal Nacional."

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) também entrou em cena para condenar o uso de algemas. No último dia 12, quando o STF já havia limitado o uso das algemas, a PF ignorou as advertências e algemou os presos na Operação Dupla Face. O presidente da OAB nacional, Cezar Britto, logo protestou: "É lamentável e muito perigoso o flagrante desrespeito da Polícia Federal com o mais importante tribunal de Justiça do País."

Após sinais de resistência na PF, o diretor-geral da corporação, Luiz Fernando Correa, anunciou na segunda-feira a edição de uma circular, limitando utilização do instrumento a casos extremos, e a revisão do manual de operações da PF.

20 agosto 2008

AS INCOERÊNCIAS DO BISPO

Por Riva Moutinho



Não sou um telespectador dos canais abertos, até porque o que tem faltado de qualidade em tais canais é algo que impressiona. Assim, quando assisto TV (e isto é raro), gasto meu tempo pelos canais pagos como Discovery, The History, Band News, Rede Tele Cine, Multishow, além de outros que possuem séries muito boas como Lost, CSI, Criminal Minds.

Esta semana estava assistindo aos jogos olímpicos na TV do meu quarto (onde ainda não possui TV a cabo) e decidi navegar pelos canais abertos durante a madrugada. Não é surpresa nenhuma a quantidade de programas religiosos neste horário, mas algo me chamou a atenção. Na recém criada Record News passava uma reportagem sobre pedofilia e um pedófilo contava sua história (sem mostrar seu rosto), como sentia prazer naquilo e como se reconheceu como doente indo, por conta própria, para uma clínica se tratar. Passado algum tempo ele se sentia curado e pronto a ter uma vida sexual normal com mulheres, ao invés de crianças. E assim foram algumas reportagens. Casos de recuperação, casos de prisão, casos de pessoas procuradas.

Uma praia onde ninguém usa biquíni

FONTE: Revista Época

Dominada por uma igreja evangélica há mais de mais de 70 anos, a praia do Provetá, em Ilha Grande, litoral do Rio de Janeiro, permanece intolerante aos trajes de banho. Mas os moradores mais jovens querem mudar essa história – há até uma garota que sonha seguir carreira de modelo



Jussara, que nasceu em Angra dos Reis, vive em Provetá e sonha ser modelo

É difícil imaginar uma praia paradisíaca onde as pessoas não vestem biquíni, maiô ou sunga para se banhar no mar. Em Provetá, na Ilha Grande, litoral do Rio de Janeiro, é assim. Ninguém usa traje de banho, é proibido ingerir bebidas alcoólicas, fumar cigarro ou freqüentar bailes. À noite e nos finais de semana, o lazer se resume aos cultos na igreja evangélica Assembléia de Deus. Ali os moradores aprenderam a viver sem as marchinhas de carnaval e as noitadas em bares. A praia é a segunda mais populosa da ilha, com 3.000 moradores, dos quais 80% evangélicos. A tradição evangélica é passada de pai para filhos há mais de 70 anos.

Em Provetá as pessoas só entram no mar de roupa e o único bar que funciona na praia é vigiado pela comunidade evangélica. Esse também é um dos motivos pelos quais poucos turistas se aventuram por aquelas paisagens. A sobrevivência da comunidade vem da pescaria de sardinhas e das mãos firmes do pastor Eliseu Benedito Martins, de 63 anos, nascido ali mesmo. Até a década de 1990, ele proibia que os moradores assistissem à TV. A intransigência acabou expulsando muitos jovens da igreja – e o pastor Eliseu passou a rever suas regras. Hoje, além de perder fiéis para as tentações que existem além da praia, ele tem perdido parte do rebanho para outra igreja, a Congregação Cristã, que também ergueu seu templo em Provetá.

Os pescadores remendando suas redes e a faixa comemorando 30 anos do grupo de oração

A estudante Jussara Souza, de 13 anos, é evangélica da Assembléia. Filha de pais evangélicos, ela nasceu em Angra dos Reis e se mudou para Provetá com a família quando tinha apenas um ano. É domingo e, sob um sol de 30º C, Jussara está de vestido de malha longo, florido, pronta para assistir ao culto na Assembléia. “Não tenho inveja das minhas amigas que usam biquíni e vestidos curtos, mas gostaria de ter mais liberdade e usá-los algumas vezes”, diz Jussara. Mesmo sendo obrigada a seguir à risca as restrições impostas pelos pais, a garota diz que consegue ter sua vida social – e que até gostaria de ser modelo. “Eu teria que sair daqui para conseguir ser modelo, mas esse é o meu sonho”, afirma. Jussara é vaidosa, gosta de arrumar o cabelo, colocar vestidos alegres e não dispensa o biquíni (por baixo da roupa) quando entra no mar. “Nos finais de semana nos divertimos na praça e nas lan houses”, diz.

Enquanto não consegue entrar para a carreira que seus pais desaprovam, Jussara vai uma vez por semana com a mãe para o continente. Apesar de a viagem ser longa, ela não diz que não se cansa e nem se sente mal com o balanço do mar. Quando desce no porto de Angra dos Reis, olha para todos os lados com curiosidade, respira outros ares e aproveita para sonhar um pouco mais com o futuro nas passarelas. Enquanto passeia no calçadão, observa atenta às vitrines que exibem roupas da moda e os sapatos de salto. Jussara tem amigas fora da comunidade evangélica, como Luana Castro, de 14 anos, moradora de Provetá que é católica e não segue o rigor dos preceitos da Assembléia de Deus. “Quando coloco o biquíni, fica todo mundo me olhando – e eu fico com vergonha, me sinto mal”, diz Luana. “Algumas meninas não gostam de mim. Elas parecem ter inveja das roupas que uso”. Os poucos católicos que moram em Provetá fazem suas orações em outras praias – ou em casa. Mesmo quem não é evangélico evita usar roupas de banho.

Irmãs evangélicas que fazem parte do grupo Heroínas da Fé

Nem sempre foi assim. No início, Provetá era uma comunidade católica. A evangelização chegou com um casal que morava no continente, Deoclécio Neves e Helena Martins das Neves. Naquela época, a travessia era feita em canoas em alto mar. Nos primeiros tempos, os cultos eram nas casas dos pescadores. “Provetá fica em uma área bem isolada da Ilha Grande, que é banhada por mar aberto. Quando as águas estão revoltas é complicado chegar lá”, diz Otto Fiúza Nogueira, gerente de projetos de marketing da Prefeitura de Angra dos Reis. Para ele, o isolamento contribuiu para fixar uma comunidade tão fechada. A luz elétrica só chegou em julho de 2001, quando o então governador Anthony Garotinho, também evangélico, resolveu eletrificar a praia. A luz chegou depois às casas dos católicos. Há quem diga que a decisão foi proposital, como uma forma de demonstrar que os não-evangélicos de Provetá vivem nas trevas. É o caso de perguntar se os “iluminados” são os que vivem sem bebida alcoólica, biquíni, música e balada.

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E ainda tem muitos que acreditam que em pleno o século 21 coisas como está não acontecessem.

Lendo esta reportagem lembrei do filme Flashdance, no entanto, no filme o reverendo reconhece suas falhas, sua rigidez.

A questão da iluminação tratada no final da reportagem ridícula, pois perante a Constituição todos têm igualdade de direito e, na minha opinião, mais uma vez demonstra o quanto os evangélicos estão distantes do Evangelho, pois nem Jesus faria tal coisa.

Riva Moutinho

18 agosto 2008

VIVA A VIDA!

Por Riva Moutinho

Você me conhece? Gostaria de falar algo para você. Talvez você tenha pouca idade e acredita que ainda viverá muitas coisas (você está certo). Talvez você tenha alguns anos acumulados e já tenha vivido muitas coisas. Talvez você goste de agito, talvez não. Talvez você seja pacato, talvez não. Mas gostaria de falar algo... e isso é muito importante. Existem coisas que são lógicas nesta vida, por exemplo: o fogo queima, a água molha, se você correr você se cansará... coisas deste tipo. Mas existem outras que de tão simples não são notadas e outras que de tão importantes são colocadas sob exagerados holofotes.

Não acredite em tudo que falam quando você é criança. A maioria das palavras são usadas apenas para fazer você sorrir. Aproveite os abraços e os carinhos de seus pais, quando você crescer a correria deste mundo vai acabar por...

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Senador do DEM deve depor em defesa de Dantas, diz advogado

FONTE: Estadão

BRASÍLIA - O senador Heráclito Fortes (DEM-PI) deve depor em defesa do banqueiro Daniel Dantas, segundo o advogado Nélio Machado. Depois de ouvir os três réus (Chicaroni, Dantas e Humberto Braz) e as testemunhas de acusação, o juiz Fausto De Sanctis começa a ouvir, a partir da semana que vem, as testemunhas de defesa.

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O nome do senador aparece em pelo menos cinco conversas gravadas pela PF na Operação Satiagraha. Heráclito negou envolvimento com o esquema de Dantas e disse que sua amizade com Carlos Rodenburg - ex-cunhado de Daniel Dantas é antiga e não tem ligação com o que foi investigado.

O senador ingressou no dia 23 de julho com uma representação na Polícia Federal contra o delegado que comandou a operação, Protógenes Queiroz, por vazamento de dados. Segundo a assessoria de Fortes, ele pediu também, no Ministério da Justiça, uma resposta de Tarso Genro sobre acesso a informações do caso. "O Senado aprovou requerimento para ter acesso à investigação da operação, mas ainda não obteve resposta do ministro", disse a assessoria do senador ao estadao.com.br.

16 agosto 2008

Amigos e familiares velam corpo de Dorival Caymmi no Rio

FONTE: Folha online

O corpo do cantor e compositor Dorival Caymmi chegou à Câmara dos Vereadores do Rio, na região central da cidade, por volta das 16h deste sábado. O velório começou cerca de vinte minutos depois.

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Familiares de Caymmi falaram sobre o sofrimento do músico nos seus últimos dias de vida, devido à ausência da mulher, Stella Maris, que está internada desde abril deste ano no Hospital Pró-Cardíaco, em Botafogo (zona sul), e em coma há dez dias. "A ausência dela [Stella] acabou com ele. Ele entrou numa melancolia, desistiu de comer, desistiu de tudo", disse Nana Caymmi, a filha mais velha do músico. "Esses dias todos ficamos tentando que ele levantasse. Ele completou os 94 anos sem ela. Foi horrível."

Nana chegou ao velório do pai por volta das 16h, chorando muito. Perguntada sobre qual das músicas de Caymmi é a sua preferida, Nana citou "Acalanto", que foi escrita para ela pelo pai. "Nem sei se mereço", disse.

"Ele não soube do coma, mas desconfiou, porque ela não ligou mais para ele", disse Stella, filha de Nana e biógrafa do músico, autora de "Dorival Caymmi - O Mar e o Tempo".

8.mar.96/Folha Imagem
Cantor e compositor baiano Dorival Caymmi morreu aos 94 anos, em seu apartamento em Copacabana, no Rio; veja mais fotos do músico

Serenidade

"É complicado. Infelizmente, aconteceu", disse Danilo Caymmi, filho mais novo do músico. "Mas aconteceu de uma forma que a família toda desejava, ou seja, ele morreu em casa, como ele mesmo queria, com serenidade".

"Infelizmente, perdemos um grande cantor e compositor, mas a obra fica", concluiu.

Filha de Danilo, Juliana Caymmi lembrou do avô como "exemplo de pessoa". "Foram 94 anos bem vividos", disse, também chorando.

O outro filho do músico, Dori Caymmi, está nos Estados Unidos, segundo a família, e deverá chegar neste domingo (17) pela manhã para se despedir do pai.

Fãs

A cantora Daniela Mercury foi uma das primeiras a chegar à Câmara. Ela disse que Dorival é "um pai e um mestre" para ela. "O amor que tenho pelo país, tenho por ele. Não dá para pensar em samba, Bahia e Brasil sem pensar em Dorival Caymmi". Segundo Daniela, há cerca de três semanas ela contou a Caymmi por telefone a intenção de fazer com outros músicos baianos uma homenagem a ele. Ontem à noite, ainda segundo a cantora, ela gravou até tarde uma versão da famosa "Samba da Minha Terra" como parte da homenagem.

Entre os fãs presentes no velório estão os novelistas Gilberto Braga e Glória Perez, da Globo. "Adoro tudo o que ele fez na vida, tudo dele, e mais os sambinhas alegres que ele fez", afirmou Braga. A música "Sábado em Copacabana", de Dorival Caymmi, foi o tema da abertura da mais recente novela de Braga, "Paraíso Tropical".

Até as 18h, 81 pessoas já haviam passado pelo local. De acordo com o Cerimonial da Câmara, o velório ficará aberto até as 22h deste sábado e a partir das 7h deste domingo. Foi na Câmara de Vereadores do Rio que Caymmi recebeu o título de Cidadão Honorário da cidade, em 1984, ao completar 70 anos. O músico nasceu em Salvador, em 1914, e se mudou para o Rio em 1938.

O enterro ocorrerá neste domingo no cemitério São João Batista, em Botafogo.

Minha vida com Ailce

FONTE: Revista IstoÉ

A primeira vez que eu a vi, Ailce de Oliveira Souza estava no meio da sala de sua casa, com um mal contido olhar de expectativa. Eu era a jornalista que contaria sua história até o fim, mas naquele momento ela fingia não saber que o fim era a morte. E, como cada um de nós, ao levantar da cama, muitas vezes ela também acreditava sinceramente que não morreria.

Quem era eu? Naquele momento, 26 de março de 2008, acho que eu era uma repórter que não sabia o que estava fazendo. Eu tinha decidido acompanhar alguém com uma doença incurável até o fim. Mas eu não tinha noção do que isso significava. No instante em que nossos olhares se encontraram no meio da sua sala, eu me coloquei numa situação impossível: minha vida estava amarrada à sua morte.

Eu não poderia desejar nunca que essa reportagem acabasse. E ao mesmo tempo desejava que ela acabasse o mais rápido possível. Fui ficando cada vez mais ansiosa para me libertar de um contato com a morte tão cotidiano e radical que estava impossibilitando a minha vida. Ao mesmo tempo, fingia que nunca acabaria. De certo modo, eu e ela éramos duas fingidoras. Ela, na posição de personagem de uma vida, eu como narradora de uma história cujo fim era o fim da vida dela.

Ela não tinha curiosidade de saber sobre minha própria vida. Eu era a narradora da dela. Nas poucas vezes em que deixei escapar alguma informação pessoal, ela pareceu muito surpreendida com o fato de eu ter uma vida que não se limitava a ouvir a dela. E não parecia apreciar essa idéia.

Ela se preocupava, sim, se eu comia, dava receitas para minha tosse contumaz, achava que eu trabalhava demais, mas não se interessava pelos meus afetos. Acho que entendeu melhor meu lugar do que eu mesma. Na condição de narradora de uma vida, eu era uma casa vazia. Eram suas as palavras que me preenchiam com história.

Enquanto o câncer a devorava por dentro, nos quase quatro meses em que estivemos juntas, eu, que raramente adoeço, colecionei três gripes, uma virose, uma sinusite, uma crise de bronquite alérgica e, durante dois dias, fiquei prostrada sentindo os sintomas dela.

Nas primeiras semanas tive muita raiva, meu mau-humor era notório. Eu sabia que era minha forma de expressar a impotência que sentia por estar presa aos fios da vida dela. Parecia que minha vida estava fora de controle, mas o que eu não controlava era a morte. A dela. E também a minha.

Marcelo Min

Quando comecei essa reportagem, pensava que atravessaríamos os dias em conversas profundas sobre a morte e o morrer. Eu não sabia de nada. Ailce e eu só falávamos da vida. Em geral, falávamos das coisas mais prosaicas da vida, aquelas que, como na frase atribuída a John Lennon, acontecem enquanto estamos ocupados fazendo grandes planos.

Em maio quase só conversamos sobre comida. Uma hora por dia, e um dia depois do outro, passávamos trocando receitas, salivando juntas, pelo telefone. Nesse diálogo gastronômico, que se estendia para a concretude das minhas panelas, eu engordava, e ela emagrecia. O que fazíamos, eu e Ailce, nessa relação inventada, era reafirmar a vida possível.

Ela tinha ganas de comprar roupas novas, se produzir e passear. No dia seguinte eu enfiava meu vestido mais colorido e ficava com vontade de dançar. Ela discorria sobre a importância de uma mulher andar sempre montada, bem vestida e perfumada. Imediatamente eu começava a escalar sapatos de salto alto com um entusiasmo de alpinista. Enquanto Ailce fazia o luto do seu corpo seqüestrado pelo câncer, eu sentia uma vontade doida de vestir uma minissaia no meu.

Que lugar era esse, o meu e o dela? Não sei. Acho que, ao longo dessa relação insólita, cada uma de nós deu diferentes sentidos ao nosso pacto. Lá pelo meio, descobrimos que a única coisa que fazia sentido, que tornava aquela relação possível, era o afeto. Era preciso que eu tivesse a coragem de me abrir para a possibilidade de amar alguém que perderia muito em breve.

Devagar, enquanto a escutava, eu comecei a amá-la. Com o tempo, ela começou a me chamar de filha. E nos últimos dias, horas, de sua vida, eu ajudava a dar banho no seu corpo já tão castigado, pingava gotas de água em sua boca ressecada com uma gaze molhada.

E ainda agora, dias depois de sua morte, eu surpreendo a mim mesma com a mão no telefone para ligar para ela, logo depois do almoço, no nosso horário particular. Eu a via toda semana e ligava para ela todos os dias. Durante quase quatro meses, isso era tão certo quanto almoçar, dormir, andar.

Quando ela chegou ao hospital, em 15 de julho, sabia que era o fim. Deitada, com dor, ela disse: “Acho que a história que você está escrevendo sobre mim chegou ao fim. O que você acha?” Eu deveria ter sido mais corajosa, mas fiquei aquém do que ela esperava. E merecia. “Não sei”, eu disse. Seus olhos amarelos me perfuraram: “Não sabe?” Eu menti: “Acho que não falta mais nada”. Na verdade, como ambas sabíamos, faltava a morte dela.

Só depois fui capaz de perceber a dimensão do que ela havia me dado. Ninguém confiara em mim como ela. Eu escreveria sua história, e ela estaria morta. Pela primeira vez, o personagem principal de uma reportagem – por premissa, não por acidente – não estaria vivo para lê-la. Ailce se entregara inteira nas minhas mãos de escritora.

Então, eu, que tenho o defeito de escrever muito mais do que cabe na estrutura editorial da revista, em qualquer reportagem, nesta sofri ainda mais ferozmente por cada frase cortada por falta de espaço. Cada corte era uma traição a Ailce, era um pedaço da vida dela que deixava de existir ao não se transformar em história contada.

O que eu dera a ela quando estava viva? Não tenho certeza. Fui companhia, fui ouvido, e algumas vezes, fui âncora. Eu estava ali para contar sua história. Quando tudo era desordem, minha presença lembrava que ainda havia essa história, ainda existia uma mulher chamada Ailce que havia criado dois filhos, construído uma casa grande e matado a fome de centenas de crianças.

Ao iniciar sua narrativa, Ailce resgatou a tessitura de sua vida, alargou seu olhar para ser capaz de perceber o conjunto da trama. E então se apaziguou com a idéia de que alguns fios seguiriam soltos e uma parte do bordado continuaria existindo apenas nos sonhos dela enquanto ela estivesse viva para sonhar.

Quando parecia fazer as pazes com o vivido, de repente voltava a ter ganas de descosturar tudo, rasgar o pano com as unhas. Depois, mais uma vez, dava um daqueles seus suspiros fundos, enfadados, e voltava a pinçar pequenas delicadezas pelas esquinas de seu traçado.

Não se acerta a vida no fim, talvez não se acerte nem mesmo no meio. A vida é desacerto, é por definição dissonância. Nos últimos minutos, segundos de vida, o olhar infinitamente triste de Ailce parecia dizer: “Então é isso? Estou morrendo mesmo? Mas eu ainda queria dançar”. Ailce morreu às 15h50 de 18 de julho com ânsia, desejando, o que me faz acreditar que viveu intensamente até o fim.

E ali nos separamos depois de quatro meses. Eu não poderia, nem queria segui-la. E ela gostaria de ficar. A certeza dessa separação era o que nos havia unido no princípio, quando ainda éramos desconhecidas e não nos amávamos. Agora, nos despedíamos como cúmplices. Mas eu sabia que minha despedida não seria ali, nem à beira do seu túmulo, onde o coveiro gritou para o colega: “Esse é o último, Nelson?”

Minha despedida é agora, com a publicação dessa reportagem. É quando eu cumpro a minha parte do contrato. A parte dela era me deixar testemunhar seu morrer. A minha era lhe reconstituir o corpo com palavras, torná-la viva pela escrita.

Testemunhar o fim da vida de Ailce não me fez achar a morte sublime. Sigo sem achar sentido para o fim. Mas sei que a intensidade da nossa vida é dada pela coragem de mergulhar no caos da condição humana.

Tenho menos medo agora. Depois de sua morte, deixei as instruções para a minha, reservei um lugar no cemitério onde desejo ser sepultada. A idéia de um dia alimentar a terra vermelha onde afundava meus pés descalços de criança, servir de berço para os pernilongos que tanto me atormentaram na infância, me faz sorrir. De algum modo o sol da manhã vai estar lá, ainda que eu não tenha como sabê-lo.

Tenho menos paciência agora com os poetas românticos, que me soam dramáticos demais. Tornei-me mais próxima de meu conterrâneo Mário Quintana: “Esta vida é uma estranha hospedaria, de onde se parte quase sempre às tontas, pois nunca as nossas malas estão prontas, e a nossa conta nunca está em dia”.

Nesses quase quatro meses que vivemos lado a lado, Ailce me mostrou que o que eu entendia como morte era vida. E foi isso que ela me legou: no final da sua vida, ela deu um recomeço para a minha. Agora, pela escrita, eu devolvo a ela a sua.

Confira abaixo o vídeo com o depoimento da repórter Eliane Brum.


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