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09 julho 2007

Religião influencia na atividade política

FONTE: Jornal O Tempo

Briga de deputados pastores reaviva a discussão sobre as "bancadas da fé", compostas por católicos e evangélicos

MARINA SCHETTINI

A briga entre os deputados federais evangélicos Carlos Willian (PSC-MG) e pastor Mário de Oliveira (PTC-MG) colocou em voga, mais uma vez, a relação entre religião e política. Tudo começou no final de junho, quando a Polícia Civil de São Paulo descobriu, por acaso, um suposto plano que teria sido arquitetado por Mário de Oliveira para matar o ex-amigo, ex-companheiro de Igreja do Evangelho Quadrangular e colega parlamentar.

Independente das teorias sobre a briga dos dois, que teriam motivações políticas e religiosas, financeiras ou pessoais, sobram questionamentos sobre em que medida a religião influencia a vida política e até que ponto religiosos que viram políticos se beneficiam da crença dos fiéis.

Se por um lado a fé dos brasileiros nos políticos é de apenas 1%, como mostrou a pesquisa CNT/Sensus, divulgada em abril deste ano, por outro, nada como apostar na fé dos eleitores para conquistar votos. De acordo com a cientista política da Universidade de São Paulo (USP), Maria do Socorro Souza Braga, o crescimento do número de evangélicos e a estagnação do ritmo da perda de fiéis da Igreja Católica no Brasil são dois dos principais fatores para o reforço da ligação entre religião e política.

A professora, que desenvolve um estudo sobre os critérios de seleção dos partidos na hora de escolher seus candidatos, explica que o peso da religião na hora de um político entrar para um partido varia de acordo com a legenda, mas todas elas enxergam os religiosos como uma ótima fonte de votos. "Depende do partido, mas na verdade o que importa é ter votos. Como os evangélicos, por exemplo, são um dos grupos de inserção que cresceu muito na década de 90, ter um evangélico enquanto parlamentar é importante porque ele tem uma base eleitoral muito forte, principalmente se ele ocupar cargos expressivos dentro da igreja à qual pertence", explica a cientista.

"Se ele é um parlamentar oriundo de uma denominação ligada à teologia da prosperidade (aquelas que levam aos fiéis a mensagem de que podem ter uma vida melhor doando parte do salário como forma de receber algo em troca para melhoria de vida) ele vai ter uma base eleitoral ainda maior, principalmente se for nos partidos mais pragmáticos, que não estão muito preocupados com um programa mais consistente. Isso vale para os católicos influentes em sua Igreja também", afirma.

"E a importância de um religioso no partido depende também da situação local, porque se o partido não tem base em uma determinada região, um evangélico ou um católico, ou budista, ou seja lá qual for a religião, influente na comunidade seria muito bemvindo", acrescenta Maria do Socorro.

Religião
Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV), intitulada "A economia das religiões: mudanças recentes", divulgada em maio, mostra que o brasileiro está cada vez mais religioso. Para chegar a essa conclusão o instituto comparou os dados do Censo e da Pesquisa de Orçamento Familiar do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e entrevistou mais de 200 mil brasileiros sobre religiosidade e economia.

De acordo com o levantamento, os católicos ainda representam a maioria da população brasileira, com 73,79%, mas os evangélicos tradicionais (5,4%) e os petencostais (12,5%) já alcançam 17,9% da população do país, com tendência de continuar a crescer.




Evangélicos tomam espaços tradicionalmente católicos


A cientista política da Universidade de São Paulo (USP) Maria do Socorro Souza Braga afirma que a Igreja Evangélica vem tomando aos poucos o lugar antes ocupado pela Católica na vida política dos brasileiros. Parte do aumento da influência dos evangélicos é explicado por uma relação simples com o aumento dos número de fiéis. Outra, segundo a estudiosa, pode ser justificada pela possibilidade de mobilidade social passada pelos pastores aos fiéis.

Um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que, em 60 anos, de 1940 a 2000, houve uma expressiva redução de católicos no Brasil: de 95% para 73,6%. Durante o mesmo período, os evangélicos cresceram de 2,6% para 15,4%. "A igreja evangélica vem crescendo muito a partir de 1980 e 1990, como mais um setor que possibilita a mobilidade social de vários segmentos da população, principalmente para aqueles que seguem carreira na hierarquia da igreja. Eles acabam fazendo relação com a política sendo parlamentar. As bancadas evangélicas vêm crescendo cada vez mais, se fortalecendo e aumentando a inserção em todas as esferas de poder", afirma Maria do Socorro.

De acordo com a cientista política, essa idéia de doação e prosperidade acaba sendo transmitida para a política. Os fiéis votam nos religiosos/políticos pensando que teriam algum retorno através de políticas públicas, por exemplo. "Os parlamentares seriam então os representantes deles para alcançar suas demandas. Mas o que se observa é que não existe essa relação de ajuda aos fiéis. Os parlamentares estão muito mais ligados aos partidos e não às igrejas de forma geral", avalia. (MS)




Políticos simpatizantes têm apoio de entidades


Os deputados federais Juvenil Alves (sem partido) e Carlos Willian (PSC-MG), o ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho (PMDB), o deputado estadual Durval Ângelo (PT) e a vereadora de Belo Horizonte Neusinha Santos (PT). Esses são apenas alguns dos exemplos de políticos que, mesmo sem ter ligação formal com movimentos religiosos, foram eleitos com forte apoio das igrejas. O mineiro Juvenil Alves, por exemplo, foi apoiado da Igreja Católica para ser o deputado federal mais bem votado do PT nas últimas eleições.

A ligação do ex-petista com a religião vem desde o tempo em que ele estudava no Seminário Santo Antônio, em Juiz de Fora, na Zona da Mata mineira. Foi lá que conheceu Durval Ângelo, um dos maiores apoiadores de sua inserção na política. Mesmo que na ligação entre o deputado e a Igreja não fosse formal, relatos dão conta de que membros da instituição pediam apoio às lideranças locais para sua eleição.

De acordo com a cientista Maria do Socorro Souza Braga, mesmo que em alguns lugares, como na Assembléia Legislativa de Minas Gerais, o número de políticos formalmente ligados por movimentos religiosos tenha diminuído nos últimos tempos, aqueles que são apenas fiéis mantêm forte a presença da religião. (MS)




Deputados negam pressão da Igreja


Uma das possíveis motivações para a desavença entre os deputados federais evangélicos Carlos Willian (PTCMG) e Mário de Oliveira (PSC-MG) aventadas desde que o suposto plano foi descoberto é disputa de poder dentro da Igreja. Os representantes da chamada "bancada da fé" na Assembléia Legislativa de Minas Gerais confirmam a influência da religião em seus mandatos, mas negam que exista qualquer tipo de pressão ou briga por poder. De acordo com o deputado petista Padre João, sua relação com a religião ajuda a fazer com que seu mandato seja pautado pela ética.

"Quando digo Igreja não me restrinjo ao bispo ou à instituição, mas ao povo de Deus. E nesse sentido a Igreja influencia sim, muito. No meu caso tenho um mandato que é coletivo e participativo. Temos um conselho político formado por representantes regionais e movimentos populares", diz. Na mesma linha do colega católico, o deputado Djalma Diniz (PPS), ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, explica que a religião influencia no comportamento de seus representantes, mas não exerce qualquer tipo de lobby ou pressão em cima daqueles que ajudou a eleger.

"Não tem esse tipo de influência, mesmo porque a obrigação de todo membro é contribuir com o dízimo, que é usado na manutenção da igreja, para cuidar dos órfãos, idosos. Mas só isso. Agora na nossa conduta é lógico que influencia. Seguimos a doutrina da Igreja, você acaba tendo um compromisso, e tem que se portar como ela dita", afirma Diniz.

Representação
O evangélico defende que todos os segmentos da sociedade tenham representação no parlamento. "A igreja não é diferente, principalmente no caso dos evangélicos, que no início tiveram muitas dificuldades. (MS)




Legendas cristãs ganham mais espaço no Brasil


Além dos políticos puxadores de votos por conta de sua ligação com a Igreja, o Brasil observa um outro fenômeno; as legendas religiosas. O Partido Social Democrata Cristão (PSDC) é um exemplo. Fundado em março de 1995, a sigla surgiu com a proposta de enfatizar o compromisso da democracia cristã com a justiça social. O PRB do vice-presidente José Alencar é outro exemplo. A legenda criada em 2005 tem entre os filiados o senador e bispo da Igreja Universal do Reino de Deus Marcelo Crivela, mas congrega católicos e evangélicos.

O PTC e o PSC, dos deputados Mário de Oliveira e Carlos Willian também são partidos novos e ligados à religiosidade. O PSC é outra legenda criada recentemente, em 1985, e já dissemina sua marca, o peixinho, por todos os cantos do país. O antigo PRN ganhou nova roupagem, mais ligada à religião, e para reforçar a postura chegou a mudar de nome em 2000. (MS)

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