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11 julho 2007

CASSANDRA
Por Riva Moutinho

Jogada num canto do quarto, sufocada por grãos de poeiras ela permanece inerte. Antes era querida. Antes era abraçada. Antes era acariciada. Agora, num gélido chão, vê os dias passarem. Ela não pensa e nem consegue imaginar algo melhor. Talvez quisesse ver o sol, talvez quisesse estar sobre a cama, talvez quisesse estar nos braços de alguém.

Ela não lembra, mas ela era a preferida de todas as outras. Belas roupas e passeios constantes. Tantos bons momentos! E sempre esteve nos maus momentos. Seus ouvidos não ouviram os choros nem seus olhos viram as lágrimas, mas se ela lembrasse... Quem sabe tentaria não viver tudo novamente.

A roupa rasgada e suja. A poeira acumulada sobre si. Talvez se ela respirasse... Talvez quisesse algo melhor. Ora, alguém a chuta sem querer. Ora, alguém prefere simplesmente ignorá-la. Talvez desejasse morrer... se houvesse vida.

Bianca está mais velha. Não freqüenta com a mesma intensidade seu quarto na casa dos seus pais. Viveu ali uma boa parte da sua vida; mas reclusa, deixou que alguns anos simplesmente passassem como horas. Sofreu com conflitos. Chorou por vários complexos. O quarto virou seu mundo e o mundo seu precipício. Aprendeu a se drogar e a jogar pra dentro de si toda espécie de lixo químico.

Numa dessas noites frias de inverno, ela descobriu que havia vida fora da sua redoma. E o amor em livros se tornou palavras sentidas. A maquiagem pesada foi aos poucos desaparecendo do rosto, bem como toda aquela roupa escura. Percebeu que o sol brilhava pra ela também e decidiu pisar no planeta que nascera.

E agora cada trauma surgia como fantasmas, assombrando em todos os lugares. Dizendo sempre que ela não era nada. Dizendo que a felicidade é algo passageiro. Mas a mulher de hoje não chora como a menina de ontem e, nem se abate frente aos fantasmas que algumas vezes ainda surgem querendo assombrá-la.

Bianca não houve as vozes que procuram desestabilizá-la. Ela rompeu a barreira de um mundo traumático para viver a vida. Superou obstáculos que muitos nem sequer tentam superá-los. Alcançou objetivos que muitos sequer pensaram em criar.

Hoje é o dia da última lembrança, daquele tempo, receber seu destino. E após alguns anos, ela volta ao seu quarto. Ela procura obcecadamente seu objetivo e finalmente encontra. Não se importa com as roupas sujas e nem com a poeira impregnada. Ela, definitivamente, cresceu e amadureceu. Agora, um ritual simbólico de uma transformação já realizada.

Ela escolhe o alto de uma colina. O sol brilha enquanto o vento fortemente lança seus cabelos para todos os lados. Os olhos de Bianca brilham. É a ansiedade de demonstrar num simples ato que sua fase arcaica e prisional acabou.

Cassandra é o objeto do passado negro de Bianca. Ela sempre esteve em todos os momentos, mas agora, ela voava num céu azul, lançada pelas mãos firmes de Bianca.

Ela não esperou a força da gravidade lançar aquela boneca de porcelana contra as pedras. Bianca já estava de costas quando Cassandra se espatifou entre as rochas.

Não há passado a ser lembrado, apenas um presente a ser vivido e um futuro a ser conquistado.

BH, 02 de junho de 2005

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