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02 julho 2007

CAMPO DE GOLFE
Por Riva Moutinho

Numa pequena cidade do interior, havia um rapaz chamado Miguel. Sonhador; vivia criando sonhos e maneiras para alcançá-los. Certa vez um grupo de empresários construiu naquela cidade um belo e pomposo campo de golfe. A grande maioria da população não conhecia aquele esporte, mas todos gostaram do destaque que aquele simples lugar passou a ter depois que aquele campo fôra construído.

Miguel ficou extasiado com aquele novo esporte e rapidamente arrumou emprego por lá. Quando conseguiu um tempo disponível, ele pegou um taco e correu para aquele campo colocando a bolinha na marca. Aquele era o melhor momento para ele! Respirou fundo. Mirou com extremo cuidado o buraco que estava a metros e metros de distância. Respirou fundo novamente. Movimentou os braços e... Lá foi a bolinha voando pelo céu. Ele se torceu pra ver se conseguia controlar a bolinha, mordeu os lábios, ficou na ponta dos pés... Mas a bolinha acabou indo parar bem longe do seu objetivo. Aquilo o entristeceu muito e ele voltou para casa lamentando sua falha e resolveu que iria ficar sem tentar por um tempo.

Trabalhava, trabalhava e trabalhava. Casa/trabalho, trabalho/casa. Até saia para se divertir, mas tinha receio de tentar jogar a bolinha novamente e errar. Ele queria muito acertar, desejava muito alcançar seu objetivo, mas não queria sentir a dor daquela frustração novamente.

Enfim, numa bela manhã, Miguel levantou da cama disposto a fazer mais uma tentativa e assim, como da outra vez, fez todo o ritual: mirou o distante buraco, se encheu de força e mandou o taco na bolinha. E lá foi ela voando novamente pelo céu. E lá estava ele torcendo para acertar. Mas, infelizmente, novamente a bolinha caiu longe do buraco e Miguel largando o taco por ali mesmo foi para casa. Decepção e frustração; mais uma vez ele estava muito triste. Mais uma vez, tentou e não conseguiu. Abatido para uma nova tentativa, acabou resolvendo esquecer aquilo tudo e voltar a sua rotina.

Muitas coisas aconteceram e com o passar do tempo, Miguel fez algumas outras tentativas; mas sempre existia um longo período entre uma tentativa e outra; e ele sempre se entristecia muito com seus erros.

Num determinado momento da sua vida, ele se posicionou no mesmo lugar que antes naquele gigantesco campo de golfe. Tudo parecia igual, mas estava diferente. Os erros anteriores tinham dado a ele experiência e já conseguia administrar melhor seu emocional. A bola estava na marca. O buraco bem longe. O taco era o melhor. Ele chegou a checar a posição e a velocidade do vento através das árvores. Respirou bem fundo e... Não tinha coragem/força para tentar. Agora, porém, existia um novo e gigantesco problema: As frustrações de antes criaram feridas que o faziam crer em mais um erro, em mais uma dolorosa decepção.

Ao longe, um senhor com uma certa idade, observou a luta que Miguel travava consigo mesmo e resolveu se aproximar. Suavemente o cumprimentou e começou a contar algumas histórias da sua vida. Miguel não dava muita atenção, queria apenas que uma força surgisse de algum lugar e o fizesse lançar aquela bola. Mas entre uma conversa e outra, aquele senhor começou a contar: _Certa vez, meu pai colocou nas minhas mãos um taco como este seu e disse: “_Filho, neste esporte é necessário ter muita paciência e é fundamental que absorvamos dos erros os nossos acertos de amanhã.” Lembro o quanto foi difícil! Mas meu pai sempre falava: “_Filho, não desanima, continue buscando acertar. Seus objetivos são puros e bons. Não deixe que nada retire sua força e lembre-se, sempre estarei aqui.” Confesso que por algumas vezes quis desistir, mas as palavras do meu pai sempre vinham a mente e acabavam por me dar a força que necessitava. E de tanto buscar e tentar acabei chegando ao campeonato profissional.

Miguel, atônito, não conseguia sequer piscar os olhos ouvindo aquela história. Quando de repente o senhor olhou fixamente nos olhos dele e disse: _Sabe qual foi o melhor de tudo isso filho? Miguel apenas balançou a cabeça negativamente. Não conseguia falar e assim continuou aquele senhor: _Descobri que são necessárias algumas derrotas e frustrações na vida, para que possamos alcançar alguns objetivos. Descobri que não adianta querer as coisas rápidas demais, pois posso não estar preparado para recebê-las. Descobri que as lições que aprendi errando foram ótimos suportes mesmo quando eu estava bem. E com os olhos lacrimejando aquele senhor finalizou: _Meu pai não viu eu ser campeão, mas me falava sempre que Deus – Pai de todos nós – vibrava quando a gente continuava lutando por nossos sonhos. Quando ergui aquela taça algo disse em meu coração: “_Eu sabia que você chegaria aqui. Você pode alcançar o que quiser... eu sempre estarei contigo”. Miguel começou a chorar e a soluçar, e abraçando aquele senhor disse: “_Hoje entendo o que antes não percebia. Sempre vou lutar por meus sonhos e não vou deixar que minhas frustrações antigas venham atrapalhar minhas oportunidades de hoje.” Sorrindo aquele senhor se despediu daquele rapaz e após enxugar com as mãos as lágrimas, Miguel não o viu mais... Nunca mais.

Algum tempo se passou e quando Miguel levantou, com lágrimas nos olhos, a taça de campeão do mundo; ele avistou aquele senhor e pode ler em seus lábios: “_Eu sabia que você chegaria até aqui!”

BH, 06/11/2003

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