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06 junho 2007

"Sou amigo de Lula, presidente não tem amigo", disse acusado, em 2004

FONTE: Folha online

Entre os acusados na Operação Xeque-Mate de pertencer à máfia dos caça-níqueis está Nilton Cezar Servo, preso ontem pela Polícia Federal e que, em entrevista à Folha, em março de 2004, relatou sua proximidade com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A Folha conversou com Servo num hotel de Brasília. Na ocasião, antes da entrevista, ele disse que revelaria detalhes de sua amizade com Lula e seus interesses no ramo de jogos. Servo, à época, falou como presidente licenciado da Associação Nacional de Bingos e Jogos, no momento em que Lula acabara de determinar o fechamento das casas de bingo no país por conta do escândalo Waldomiro Diniz --então assessor do Planalto, este foi flagrado pagando propina a um empresário do ramo de jogos. Dias antes, Lula havia afirmado que regularizar esse jogo seria "legalizar a bandidagem". A seguir, trechos da entrevista --gravada e inédita.

FOLHA - Como o sr. conheceu o presidente Lula?

NILTON CEZAR SERVO - Nas campanhas políticas. Porque apoiei o Zeca do PT em Mato Grosso do Sul em suas campanhas a prefeito e depois a governador. Conheci o Lula desde a formação do PT, mas, naquela época, não tinha um bom relacionamento com ele. Ele conhece milhares de pessoas. Depois que passei a conversar pessoalmente com Lula, passei a ter o privilégio dessa amizade.

FOLHA - Quais os motivos dessas conversas?

SERVO - Político, quando encontra político, fala de política. Passei a ter amizade com o Lula nos últimos anos. Quero dizer: sou amigo do Lula, não sou amigo do presidente. Porque presidente não tem amigo.

FOLHA - Como chegou a ele?

SERVO - Todo mundo gosta de tentar se aproximar de pessoas influentes e carismáticas. Como também sou líder político, também tentei conhecê-lo. Uma das vezes que estive mais próximo do Lula foi em um período de férias dele no Pantanal. Fiquei sabendo que o Lula estava lá e, mesmo sem ser convidado, fui até o local [em 1999].

FOLHA - De quem era a fazenda?

SERVO - Era uma fazenda no rio Paraguai, não estou lembrado do nome do dono. De um amigo do governador Zeca.

FOLHA - Esse foi o primeiro contato próximo com o Lula?

SERVO - Sim. Depois, em outras oportunidades, tentei me aproximar. Já me encontrei com Lula na recepção aqui do hotel, no PT em São Paulo e no Instituto Cidadania, onde ele ficava.

FOLHA - Os encontros eram casuais ou agendados?

SERVO - Se eu passasse por São Paulo, procurava me encontrar com ele. Sem agendar. Assim como se fosse cara-de-pau.

FOLHA - E ele o recebia?

SERVO - Sempre que possível.

FOLHA - Na época, o sr. já era ligado ao ramo de bingos?

SERVO - Sempre fui ligado, mesmo porque meu filho mais velho tem bingos em Curitiba.

FOLHA - Fale mais de seu relacionamento com Lula

SERVO - Tive o prazer de freqüentar a chácara do Lula [em SP]. Já comi coelho com ele. Estive lá três ou quatro vezes.

FOLHA - O que levou o presidente, na opinião do sr., a tomar essa decisão contra os bingos?

SERVO - Veja bem. Quando tivemos um problema no Paraná, em maio do ano passado [2003], o meu filho me ligou. Então falei com o Lula, e não com o presidente. Liguei. Disse que o Paraná estava atravessando um problema sério, 7.000 desempregados, enquanto o Brasil tinha casas de jogos funcionando.

FOLHA - O que o sr. pediu a ele?

SERVO - Então, eu disse: "Lula, eu gostaria de pedir para você regulamentar definitivamente isso ou acabar definitivamente com isso". E ele disse que pessoalmente iria falar com o ministro do Esporte [na época, Agnelo Queiroz] e tentar buscar uma solução definitiva.

FOLHA - E ele prometeu algo?

SERVO - Ele disse que iria estudar bem o assunto.

FOLHA - O que o sr. achou da declaração de Lula quando se referiu a donos de bingo como "bandidagem"?

SERVO - A declaração do presidente foi o escudo e o espelho que ele arrumou diante das vaias. Hoje o Nilton Servo é amigo do Lula, e o pessoal vai falar: "Olhe lá, o Lula é amigo de um dono de bingos". Mas não tem nada ver. Vou continuar sendo amigo do presidente, a não ser que ele não queira.

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