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26 maio 2007

ESPECIAL: 1 giga de corrupção
Fonte: Revista Veja - Parte II

A casa e a lancha



Alexandre Oltramari
Eduardo Martins/Ag. A Tarde

O empreiteiro Zuleido Veras, dono da Gautama, é um homem pacato. Seu principal lazer nos fins de semana é ficar recluso em sua residência, nas franjas de Salvador. Instalada num terreno de 15 000 metros quadrados, equipada com piscina, campo de futebol, quadra de tênis e trilha para caminhada, a casa está avaliada em 5 milhões de reais. Outro patrimônio vistoso é sua lancha Clara, que vale uns 3 milhões de reais. A lancha, que foi usada num passeio pelo governador da Bahia, Jaques Wagner, e pela ministra Dilma Rousseff, tem 52 pés, três suítes, ar-condicionado e ice maker.

Negociatas às claras

Nas 585 gravações telefônicas feitas pela Polícia Federal, os diálogos têm uma característica comum – todos eles são despudoradamente claros. Os interlocutores, por se julgar acima da lei ou por acreditar que jamais seriam flagrados na criminalidade, falam das negociatas sem pejo, evitando apenas expressões muito comprometedoras, como propina, suborno, corrupção. A seguir, alguns exemplos em conversas inéditas:

"ACERTOU O ESQUEMA"

Neste diálogo, interceptado às 9h21 do dia 13 de julho do ano passado, o lobista Sérgio Sá fala abertamente de um acerto no Dnit, o órgão que cuida das estradas no país. Na conversa, o lobista, talvez convicto de sua impunidade, nem se dá ao trabalho de falar por códigos ou usar frases cifradas. Ele conta a Maria de Fátima Palmeira, diretora da Gautama, que esteve com o diretor do Dnit, Mauro Barbosa, e que o acerto está feito: o dinheiro vai ser liberado – ou "delegado", como se diz no jargão – para a Rodovia BR-020. A Engevix, de Sérgio Sá, faz o projeto, e o restante fica por conta da Gautama. Tudo muito simples.

Sérgio Sá: Eu tive ontem com o Mauro, no Dnit. Acertou já a delegação. Nós, a Engevix, vamos fazer o projeto básico e o executivo. Acertou o esquema da obra lá para vocês.

Fátima: Tá jóia, fechado.

"CONVERSAMOS BASTANTE"

Esta conversa entre o lobista Sérgio Sá e o dono da Gautama, Zuleido Veras, transcorreu às 22h43 do dia 12 de julho de 2006. A gravação mostra a naturalidade com que o lobista se encontrava com o então ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, e tratavam de assunto que deveria ser sigiloso, como editais de licitações.

Zuleido: E aí?

Sérgio Sá: Foi tudo tranqüilo. Estivemos lá com o Silas. Tava tudo já encaminhado dentro da Eletrobrás com relação ao resto do dinheiro do Luz para Todos. Conversamos bastante sobre a questão dos editais. (...) Foi uma visita boa no final de tarde.

Zuleido: Humm...

"É UM ABSURDO"

Nesta conversa, gravada às 12h25 do dia 29 de agosto do ano passado, o lobista Sérgio Sá fala com o empreiteiro Zuleido Veras. Ele diz que o então ministro

Adylson Motta, do Tribunal de Contas da União, fará uma reunião em sua casa com o procurador-geral do tribunal, Lucas Furtado. O assunto é um caso em que a Gautama estava enrolada. Neste diálogo, tudo é estranho: ministro recebe lobista, ministro convoca procurador, procurador se explica, lobista reclama... A conversa sugere que se trata de uma quadrilha capaz de manipular decisões do TCU.

Sérgio Sá: Adylson chamou Lucas na casa dele à 1 e meia. Tenho que chegar um pouco antes. Deixa o celular ligado que te informo.

Zuleido: O.k.

Horas mais tarde, às 16h56, o lobista comenta com Fátima Palmeira, diretora da Gautama, o teor da reunião na casa do ministro Adylson Motta.

Sérgio Sá: O Lucas levou só os pareceres dos processos. Quando cheguei lá, o Adylson leu e ficou p... para c... Ele falou assim: "Faz de conta que eu não vi isso."

Fátima: É um absurdo!

Sérgio Sá: E tem outra, né? Combinado é combinado.

"PÃO, PÃO, QUEIJO, QUEIJO"

Às 19h09 do dia 12 de março deste ano, Fátima Palmeira, diretora comercial da Gautama, fala com uma lobista identificada como Ivanise "Oncinha". Elas conversam sobre a compra de um parecer do Tribunal de Contas da União (TCU). O diálogo é um escândalo, por sugerir que os pareceres são negociáveis, e emblemático, por mostrar que as propinas eram pagas contra serviços 100% certos. Fátima pede para ler o parecer antes de tudo.

Fátima: Se for para resolver resolvido, ele topa (refere-se ao empreiteiro Zuleido Veras). Agora, eu teria que pelo menos dar uma olhada antes, né?

Ivanise: Queria o quê?

Fátima: Teria que olhar o que está realmente escrito para ter certeza de que está tudo o.k.

Ivanise: Tá, claro. É uma coisa pão pão, queijo queijo.

"NORMAL NÃO FOI NÃO, NÉ?"

Neste diálogo, interceptado às 10h48 do dia 6 de julho do ano passado, Rodolpho Veras, filho de Zuleido, conversa com o administrador da fazenda do pai, Henrique Garcia de Araújo, sobre uma compra de gado – meio usado para lavar dinheiro de corrupção. O capataz conta que precisa levar documentos para o vendedor do gado, e o filho de Zuleido, talvez por temer um grampo, afirma que a compra foi regular. O capataz, sem entender o cuidado do interlocutor, deixa claro que era tudo picaretagem.

Rodolpho Veras: Foi uma compra normal, tá?

Henrique de Araújo: Ué, normal não foi não, né, Rodolpho? Esse gado não vale 10% do valor que está na nota aqui.

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