21 Agosto 2008

CCJ do Senado aprova regra para uso de algemas

FONTE: Estadão

Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou ontem um projeto de lei para regulamentar o uso de algemas no País. O texto especifica os casos em que a prática será considerada abusiva, fixa a obrigatoriedade do registro escrito que deverá ser feito pelas autoridades que utilizá-las e relaciona as punições a que se sujeitarão os que desobedecerem a lei.

O senador Demóstenes Torres (DEM-GO), autor do projeto, disse que as normas vão se adequar ao conteúdo da súmula do Supremo Tribunal Federal (STF), aprovadas na semana passada, endurecendo as regras. O projeto deverá ser votado no plenário do Senado e na Câmara, antes de ser encaminhado à sanção presidencial.

Demóstenes excluiu do projeto oito casos em que as algemas poderiam ser adotadas. Conforme lembrou o senador, o projeto original detalhava situações em que o uso era permitido, mas apresentavam lacunas que poderiam ser usadas contra a ação da autoridade policial, o que gerou diversas manifestações de integrantes do Ministério Público, da magistratura e da Polícia Federal.

Um desses casos, explicou, é a prisão de algum lutador de artes marciais ou a de alguém com condições de agredir os agentes policiais. Ele citou, como exemplo, o caso de uma idosa presa em sua casa pela Polícia Federal, por fraude no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que tentou reagir jogando uma panela cheia de água quente no rosto do policial.

"Em vez de disciplinarmos as situações em que o preso pode ser algemado, especificamos os casos de abuso", afirmou. "Em vez de dizermos quando a algema pode ser utilizada, dizemos quando não pode e dessa forma mantemos o espírito original do projeto, de 2004, que se coaduna com a súmula do STF."

O relator as emendas, senador Antonio Carlos Valadares (PSB-SE), incluiu no seu parecer a informação de que a decisão do STF foi apelidada por juízes de "Súmula Cacciola-Dantas", pelo fato de o tribunal ter se dedicado ao tema após a prisão dos banqueiros Salvatore Cacciola e Daniel Dantas.

"Do ponto de vista oficial o motivo foi outro", garantiu Valadares, referindo-se à anulação do júri presidido pela filha do ministro do STF, Cezar Peluso, juíza Glaís de Toledo Piza Peluso, que condenou a 13 anos e meio o pedreiro Antonio Sérgio da Silva, por homicídio, após ele ter permanecido algemado durante todo o julgamento.

Os senadores Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) e Wellington Salgado (PMDB-MG) votaram contra as emendas. Jarbas por considerar "inconcebível" prender alguém que não ofereça resistência e Wellington, por preferir a decisão do Supremo.

RESISTÊNCIA

Um dos principais críticos do uso generalizado de algemas em operações da Polícia Federal, o presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, foi o grande motivador da discussão. Em debate promovido pelo Estado no dia 4, em meio à repercussão da Operação Satiagraha - na qual a PF prendeu e algemou Dantas, o ex-prefeito Celso Pitta e o investidor Naji Nahas - Mendes declarou: "A prisão, em muitos casos, só se justifica para fazer a imagem e a imagem com algema. Prender é algemar e expor no Jornal Nacional."

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) também entrou em cena para condenar o uso de algemas. No último dia 12, quando o STF já havia limitado o uso das algemas, a PF ignorou as advertências e algemou os presos na Operação Dupla Face. O presidente da OAB nacional, Cezar Britto, logo protestou: "É lamentável e muito perigoso o flagrante desrespeito da Polícia Federal com o mais importante tribunal de Justiça do País."

Após sinais de resistência na PF, o diretor-geral da corporação, Luiz Fernando Correa, anunciou na segunda-feira a edição de uma circular, limitando utilização do instrumento a casos extremos, e a revisão do manual de operações da PF.

20 Agosto 2008

AS INCOERÊNCIAS DO BISPO

Por Riva Moutinho



Não sou um telespectador dos canais abertos, até porque o que tem faltado de qualidade em tais canais é algo que impressiona. Assim, quando assisto TV (e isto é raro), gasto meu tempo pelos canais pagos como Discovery, The History, Band News, Rede Tele Cine, Multishow, além de outros que possuem séries muito boas como Lost, CSI, Criminal Minds.

Esta semana estava assistindo aos jogos olímpicos na TV do meu quarto (onde ainda não possui TV a cabo) e decidi navegar pelos canais abertos durante a madrugada. Não é surpresa nenhuma a quantidade de programas religiosos neste horário, mas algo me chamou a atenção. Na recém criada Record News passava uma reportagem sobre pedofilia e um pedófilo contava sua história (sem mostrar seu rosto), como sentia prazer naquilo e como se reconheceu como doente indo, por conta própria, para uma clínica se tratar. Passado algum tempo ele se sentia curado e pronto a ter uma vida sexual normal com mulheres, ao invés de crianças. E assim foram algumas reportagens. Casos de recuperação, casos de prisão, casos de pessoas procuradas.

Uma praia onde ninguém usa biquíni

FONTE: Revista Época

Dominada por uma igreja evangélica há mais de mais de 70 anos, a praia do Provetá, em Ilha Grande, litoral do Rio de Janeiro, permanece intolerante aos trajes de banho. Mas os moradores mais jovens querem mudar essa história – há até uma garota que sonha seguir carreira de modelo



Jussara, que nasceu em Angra dos Reis, vive em Provetá e sonha ser modelo

É difícil imaginar uma praia paradisíaca onde as pessoas não vestem biquíni, maiô ou sunga para se banhar no mar. Em Provetá, na Ilha Grande, litoral do Rio de Janeiro, é assim. Ninguém usa traje de banho, é proibido ingerir bebidas alcoólicas, fumar cigarro ou freqüentar bailes. À noite e nos finais de semana, o lazer se resume aos cultos na igreja evangélica Assembléia de Deus. Ali os moradores aprenderam a viver sem as marchinhas de carnaval e as noitadas em bares. A praia é a segunda mais populosa da ilha, com 3.000 moradores, dos quais 80% evangélicos. A tradição evangélica é passada de pai para filhos há mais de 70 anos.

Em Provetá as pessoas só entram no mar de roupa e o único bar que funciona na praia é vigiado pela comunidade evangélica. Esse também é um dos motivos pelos quais poucos turistas se aventuram por aquelas paisagens. A sobrevivência da comunidade vem da pescaria de sardinhas e das mãos firmes do pastor Eliseu Benedito Martins, de 63 anos, nascido ali mesmo. Até a década de 1990, ele proibia que os moradores assistissem à TV. A intransigência acabou expulsando muitos jovens da igreja – e o pastor Eliseu passou a rever suas regras. Hoje, além de perder fiéis para as tentações que existem além da praia, ele tem perdido parte do rebanho para outra igreja, a Congregação Cristã, que também ergueu seu templo em Provetá.

Os pescadores remendando suas redes e a faixa comemorando 30 anos do grupo de oração

A estudante Jussara Souza, de 13 anos, é evangélica da Assembléia. Filha de pais evangélicos, ela nasceu em Angra dos Reis e se mudou para Provetá com a família quando tinha apenas um ano. É domingo e, sob um sol de 30º C, Jussara está de vestido de malha longo, florido, pronta para assistir ao culto na Assembléia. “Não tenho inveja das minhas amigas que usam biquíni e vestidos curtos, mas gostaria de ter mais liberdade e usá-los algumas vezes”, diz Jussara. Mesmo sendo obrigada a seguir à risca as restrições impostas pelos pais, a garota diz que consegue ter sua vida social – e que até gostaria de ser modelo. “Eu teria que sair daqui para conseguir ser modelo, mas esse é o meu sonho”, afirma. Jussara é vaidosa, gosta de arrumar o cabelo, colocar vestidos alegres e não dispensa o biquíni (por baixo da roupa) quando entra no mar. “Nos finais de semana nos divertimos na praça e nas lan houses”, diz.

Enquanto não consegue entrar para a carreira que seus pais desaprovam, Jussara vai uma vez por semana com a mãe para o continente. Apesar de a viagem ser longa, ela não diz que não se cansa e nem se sente mal com o balanço do mar. Quando desce no porto de Angra dos Reis, olha para todos os lados com curiosidade, respira outros ares e aproveita para sonhar um pouco mais com o futuro nas passarelas. Enquanto passeia no calçadão, observa atenta às vitrines que exibem roupas da moda e os sapatos de salto. Jussara tem amigas fora da comunidade evangélica, como Luana Castro, de 14 anos, moradora de Provetá que é católica e não segue o rigor dos preceitos da Assembléia de Deus. “Quando coloco o biquíni, fica todo mundo me olhando – e eu fico com vergonha, me sinto mal”, diz Luana. “Algumas meninas não gostam de mim. Elas parecem ter inveja das roupas que uso”. Os poucos católicos que moram em Provetá fazem suas orações em outras praias – ou em casa. Mesmo quem não é evangélico evita usar roupas de banho.

Irmãs evangélicas que fazem parte do grupo Heroínas da Fé

Nem sempre foi assim. No início, Provetá era uma comunidade católica. A evangelização chegou com um casal que morava no continente, Deoclécio Neves e Helena Martins das Neves. Naquela época, a travessia era feita em canoas em alto mar. Nos primeiros tempos, os cultos eram nas casas dos pescadores. “Provetá fica em uma área bem isolada da Ilha Grande, que é banhada por mar aberto. Quando as águas estão revoltas é complicado chegar lá”, diz Otto Fiúza Nogueira, gerente de projetos de marketing da Prefeitura de Angra dos Reis. Para ele, o isolamento contribuiu para fixar uma comunidade tão fechada. A luz elétrica só chegou em julho de 2001, quando o então governador Anthony Garotinho, também evangélico, resolveu eletrificar a praia. A luz chegou depois às casas dos católicos. Há quem diga que a decisão foi proposital, como uma forma de demonstrar que os não-evangélicos de Provetá vivem nas trevas. É o caso de perguntar se os “iluminados” são os que vivem sem bebida alcoólica, biquíni, música e balada.

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E ainda tem muitos que acreditam que em pleno o século 21 coisas como está não acontecessem.

Lendo esta reportagem lembrei do filme Flashdance, no entanto, no filme o reverendo reconhece suas falhas, sua rigidez.

A questão da iluminação tratada no final da reportagem ridícula, pois perante a Constituição todos têm igualdade de direito e, na minha opinião, mais uma vez demonstra o quanto os evangélicos estão distantes do Evangelho, pois nem Jesus faria tal coisa.

Riva Moutinho

18 Agosto 2008

VIVA A VIDA!

Por Riva Moutinho

Você me conhece? Gostaria de falar algo para você. Talvez você tenha pouca idade e acredita que ainda viverá muitas coisas (você está certo). Talvez você tenha alguns anos acumulados e já tenha vivido muitas coisas. Talvez você goste de agito, talvez não. Talvez você seja pacato, talvez não. Mas gostaria de falar algo... e isso é muito importante. Existem coisas que são lógicas nesta vida, por exemplo: o fogo queima, a água molha, se você correr você se cansará... coisas deste tipo. Mas existem outras que de tão simples não são notadas e outras que de tão importantes são colocadas sob exagerados holofotes.

Não acredite em tudo que falam quando você é criança. A maioria das palavras são usadas apenas para fazer você sorrir. Aproveite os abraços e os carinhos de seus pais, quando você crescer a correria deste mundo vai acabar por...

para continuar lendo o texto acesse o Blog Infinito de mim

Senador do DEM deve depor em defesa de Dantas, diz advogado

FONTE: Estadão

BRASÍLIA - O senador Heráclito Fortes (DEM-PI) deve depor em defesa do banqueiro Daniel Dantas, segundo o advogado Nélio Machado. Depois de ouvir os três réus (Chicaroni, Dantas e Humberto Braz) e as testemunhas de acusação, o juiz Fausto De Sanctis começa a ouvir, a partir da semana que vem, as testemunhas de defesa.

Veja Também:

linkEntenda como funcionava o esquema criminoso especial

linkVeja as principais operações da PF desde 2003 especial

linkAs prisões de Daniel Dantas

O nome do senador aparece em pelo menos cinco conversas gravadas pela PF na Operação Satiagraha. Heráclito negou envolvimento com o esquema de Dantas e disse que sua amizade com Carlos Rodenburg - ex-cunhado de Daniel Dantas é antiga e não tem ligação com o que foi investigado.

O senador ingressou no dia 23 de julho com uma representação na Polícia Federal contra o delegado que comandou a operação, Protógenes Queiroz, por vazamento de dados. Segundo a assessoria de Fortes, ele pediu também, no Ministério da Justiça, uma resposta de Tarso Genro sobre acesso a informações do caso. "O Senado aprovou requerimento para ter acesso à investigação da operação, mas ainda não obteve resposta do ministro", disse a assessoria do senador ao estadao.com.br.

16 Agosto 2008

Amigos e familiares velam corpo de Dorival Caymmi no Rio

FONTE: Folha online

O corpo do cantor e compositor Dorival Caymmi chegou à Câmara dos Vereadores do Rio, na região central da cidade, por volta das 16h deste sábado. O velório começou cerca de vinte minutos depois.

Saiba mais sobre a carreira do músico Dorival Caymmi
Saiba mais sobre a vida do músico Dorival Caymmi

Familiares de Caymmi falaram sobre o sofrimento do músico nos seus últimos dias de vida, devido à ausência da mulher, Stella Maris, que está internada desde abril deste ano no Hospital Pró-Cardíaco, em Botafogo (zona sul), e em coma há dez dias. "A ausência dela [Stella] acabou com ele. Ele entrou numa melancolia, desistiu de comer, desistiu de tudo", disse Nana Caymmi, a filha mais velha do músico. "Esses dias todos ficamos tentando que ele levantasse. Ele completou os 94 anos sem ela. Foi horrível."

Nana chegou ao velório do pai por volta das 16h, chorando muito. Perguntada sobre qual das músicas de Caymmi é a sua preferida, Nana citou "Acalanto", que foi escrita para ela pelo pai. "Nem sei se mereço", disse.

"Ele não soube do coma, mas desconfiou, porque ela não ligou mais para ele", disse Stella, filha de Nana e biógrafa do músico, autora de "Dorival Caymmi - O Mar e o Tempo".

8.mar.96/Folha Imagem
Cantor e compositor baiano Dorival Caymmi morreu aos 94 anos, em seu apartamento em Copacabana, no Rio; veja mais fotos do músico

Serenidade

"É complicado. Infelizmente, aconteceu", disse Danilo Caymmi, filho mais novo do músico. "Mas aconteceu de uma forma que a família toda desejava, ou seja, ele morreu em casa, como ele mesmo queria, com serenidade".

"Infelizmente, perdemos um grande cantor e compositor, mas a obra fica", concluiu.

Filha de Danilo, Juliana Caymmi lembrou do avô como "exemplo de pessoa". "Foram 94 anos bem vividos", disse, também chorando.

O outro filho do músico, Dori Caymmi, está nos Estados Unidos, segundo a família, e deverá chegar neste domingo (17) pela manhã para se despedir do pai.

Fãs

A cantora Daniela Mercury foi uma das primeiras a chegar à Câmara. Ela disse que Dorival é "um pai e um mestre" para ela. "O amor que tenho pelo país, tenho por ele. Não dá para pensar em samba, Bahia e Brasil sem pensar em Dorival Caymmi". Segundo Daniela, há cerca de três semanas ela contou a Caymmi por telefone a intenção de fazer com outros músicos baianos uma homenagem a ele. Ontem à noite, ainda segundo a cantora, ela gravou até tarde uma versão da famosa "Samba da Minha Terra" como parte da homenagem.

Entre os fãs presentes no velório estão os novelistas Gilberto Braga e Glória Perez, da Globo. "Adoro tudo o que ele fez na vida, tudo dele, e mais os sambinhas alegres que ele fez", afirmou Braga. A música "Sábado em Copacabana", de Dorival Caymmi, foi o tema da abertura da mais recente novela de Braga, "Paraíso Tropical".

Até as 18h, 81 pessoas já haviam passado pelo local. De acordo com o Cerimonial da Câmara, o velório ficará aberto até as 22h deste sábado e a partir das 7h deste domingo. Foi na Câmara de Vereadores do Rio que Caymmi recebeu o título de Cidadão Honorário da cidade, em 1984, ao completar 70 anos. O músico nasceu em Salvador, em 1914, e se mudou para o Rio em 1938.

O enterro ocorrerá neste domingo no cemitério São João Batista, em Botafogo.

Minha vida com Ailce

FONTE: Revista IstoÉ

A primeira vez que eu a vi, Ailce de Oliveira Souza estava no meio da sala de sua casa, com um mal contido olhar de expectativa. Eu era a jornalista que contaria sua história até o fim, mas naquele momento ela fingia não saber que o fim era a morte. E, como cada um de nós, ao levantar da cama, muitas vezes ela também acreditava sinceramente que não morreria.

Quem era eu? Naquele momento, 26 de março de 2008, acho que eu era uma repórter que não sabia o que estava fazendo. Eu tinha decidido acompanhar alguém com uma doença incurável até o fim. Mas eu não tinha noção do que isso significava. No instante em que nossos olhares se encontraram no meio da sua sala, eu me coloquei numa situação impossível: minha vida estava amarrada à sua morte.

Eu não poderia desejar nunca que essa reportagem acabasse. E ao mesmo tempo desejava que ela acabasse o mais rápido possível. Fui ficando cada vez mais ansiosa para me libertar de um contato com a morte tão cotidiano e radical que estava impossibilitando a minha vida. Ao mesmo tempo, fingia que nunca acabaria. De certo modo, eu e ela éramos duas fingidoras. Ela, na posição de personagem de uma vida, eu como narradora de uma história cujo fim era o fim da vida dela.

Ela não tinha curiosidade de saber sobre minha própria vida. Eu era a narradora da dela. Nas poucas vezes em que deixei escapar alguma informação pessoal, ela pareceu muito surpreendida com o fato de eu ter uma vida que não se limitava a ouvir a dela. E não parecia apreciar essa idéia.

Ela se preocupava, sim, se eu comia, dava receitas para minha tosse contumaz, achava que eu trabalhava demais, mas não se interessava pelos meus afetos. Acho que entendeu melhor meu lugar do que eu mesma. Na condição de narradora de uma vida, eu era uma casa vazia. Eram suas as palavras que me preenchiam com história.

Enquanto o câncer a devorava por dentro, nos quase quatro meses em que estivemos juntas, eu, que raramente adoeço, colecionei três gripes, uma virose, uma sinusite, uma crise de bronquite alérgica e, durante dois dias, fiquei prostrada sentindo os sintomas dela.

Nas primeiras semanas tive muita raiva, meu mau-humor era notório. Eu sabia que era minha forma de expressar a impotência que sentia por estar presa aos fios da vida dela. Parecia que minha vida estava fora de controle, mas o que eu não controlava era a morte. A dela. E também a minha.

Marcelo Min

Quando comecei essa reportagem, pensava que atravessaríamos os dias em conversas profundas sobre a morte e o morrer. Eu não sabia de nada. Ailce e eu só falávamos da vida. Em geral, falávamos das coisas mais prosaicas da vida, aquelas que, como na frase atribuída a John Lennon, acontecem enquanto estamos ocupados fazendo grandes planos.

Em maio quase só conversamos sobre comida. Uma hora por dia, e um dia depois do outro, passávamos trocando receitas, salivando juntas, pelo telefone. Nesse diálogo gastronômico, que se estendia para a concretude das minhas panelas, eu engordava, e ela emagrecia. O que fazíamos, eu e Ailce, nessa relação inventada, era reafirmar a vida possível.

Ela tinha ganas de comprar roupas novas, se produzir e passear. No dia seguinte eu enfiava meu vestido mais colorido e ficava com vontade de dançar. Ela discorria sobre a importância de uma mulher andar sempre montada, bem vestida e perfumada. Imediatamente eu começava a escalar sapatos de salto alto com um entusiasmo de alpinista. Enquanto Ailce fazia o luto do seu corpo seqüestrado pelo câncer, eu sentia uma vontade doida de vestir uma minissaia no meu.

Que lugar era esse, o meu e o dela? Não sei. Acho que, ao longo dessa relação insólita, cada uma de nós deu diferentes sentidos ao nosso pacto. Lá pelo meio, descobrimos que a única coisa que fazia sentido, que tornava aquela relação possível, era o afeto. Era preciso que eu tivesse a coragem de me abrir para a possibilidade de amar alguém que perderia muito em breve.

Devagar, enquanto a escutava, eu comecei a amá-la. Com o tempo, ela começou a me chamar de filha. E nos últimos dias, horas, de sua vida, eu ajudava a dar banho no seu corpo já tão castigado, pingava gotas de água em sua boca ressecada com uma gaze molhada.

E ainda agora, dias depois de sua morte, eu surpreendo a mim mesma com a mão no telefone para ligar para ela, logo depois do almoço, no nosso horário particular. Eu a via toda semana e ligava para ela todos os dias. Durante quase quatro meses, isso era tão certo quanto almoçar, dormir, andar.

Quando ela chegou ao hospital, em 15 de julho, sabia que era o fim. Deitada, com dor, ela disse: “Acho que a história que você está escrevendo sobre mim chegou ao fim. O que você acha?” Eu deveria ter sido mais corajosa, mas fiquei aquém do que ela esperava. E merecia. “Não sei”, eu disse. Seus olhos amarelos me perfuraram: “Não sabe?” Eu menti: “Acho que não falta mais nada”. Na verdade, como ambas sabíamos, faltava a morte dela.

Só depois fui capaz de perceber a dimensão do que ela havia me dado. Ninguém confiara em mim como ela. Eu escreveria sua história, e ela estaria morta. Pela primeira vez, o personagem principal de uma reportagem – por premissa, não por acidente – não estaria vivo para lê-la. Ailce se entregara inteira nas minhas mãos de escritora.

Então, eu, que tenho o defeito de escrever muito mais do que cabe na estrutura editorial da revista, em qualquer reportagem, nesta sofri ainda mais ferozmente por cada frase cortada por falta de espaço. Cada corte era uma traição a Ailce, era um pedaço da vida dela que deixava de existir ao não se transformar em história contada.

O que eu dera a ela quando estava viva? Não tenho certeza. Fui companhia, fui ouvido, e algumas vezes, fui âncora. Eu estava ali para contar sua história. Quando tudo era desordem, minha presença lembrava que ainda havia essa história, ainda existia uma mulher chamada Ailce que havia criado dois filhos, construído uma casa grande e matado a fome de centenas de crianças.

Ao iniciar sua narrativa, Ailce resgatou a tessitura de sua vida, alargou seu olhar para ser capaz de perceber o conjunto da trama. E então se apaziguou com a idéia de que alguns fios seguiriam soltos e uma parte do bordado continuaria existindo apenas nos sonhos dela enquanto ela estivesse viva para sonhar.

Quando parecia fazer as pazes com o vivido, de repente voltava a ter ganas de descosturar tudo, rasgar o pano com as unhas. Depois, mais uma vez, dava um daqueles seus suspiros fundos, enfadados, e voltava a pinçar pequenas delicadezas pelas esquinas de seu traçado.

Não se acerta a vida no fim, talvez não se acerte nem mesmo no meio. A vida é desacerto, é por definição dissonância. Nos últimos minutos, segundos de vida, o olhar infinitamente triste de Ailce parecia dizer: “Então é isso? Estou morrendo mesmo? Mas eu ainda queria dançar”. Ailce morreu às 15h50 de 18 de julho com ânsia, desejando, o que me faz acreditar que viveu intensamente até o fim.

E ali nos separamos depois de quatro meses. Eu não poderia, nem queria segui-la. E ela gostaria de ficar. A certeza dessa separação era o que nos havia unido no princípio, quando ainda éramos desconhecidas e não nos amávamos. Agora, nos despedíamos como cúmplices. Mas eu sabia que minha despedida não seria ali, nem à beira do seu túmulo, onde o coveiro gritou para o colega: “Esse é o último, Nelson?”

Minha despedida é agora, com a publicação dessa reportagem. É quando eu cumpro a minha parte do contrato. A parte dela era me deixar testemunhar seu morrer. A minha era lhe reconstituir o corpo com palavras, torná-la viva pela escrita.

Testemunhar o fim da vida de Ailce não me fez achar a morte sublime. Sigo sem achar sentido para o fim. Mas sei que a intensidade da nossa vida é dada pela coragem de mergulhar no caos da condição humana.

Tenho menos medo agora. Depois de sua morte, deixei as instruções para a minha, reservei um lugar no cemitério onde desejo ser sepultada. A idéia de um dia alimentar a terra vermelha onde afundava meus pés descalços de criança, servir de berço para os pernilongos que tanto me atormentaram na infância, me faz sorrir. De algum modo o sol da manhã vai estar lá, ainda que eu não tenha como sabê-lo.

Tenho menos paciência agora com os poetas românticos, que me soam dramáticos demais. Tornei-me mais próxima de meu conterrâneo Mário Quintana: “Esta vida é uma estranha hospedaria, de onde se parte quase sempre às tontas, pois nunca as nossas malas estão prontas, e a nossa conta nunca está em dia”.

Nesses quase quatro meses que vivemos lado a lado, Ailce me mostrou que o que eu entendia como morte era vida. E foi isso que ela me legou: no final da sua vida, ela deu um recomeço para a minha. Agora, pela escrita, eu devolvo a ela a sua.

Confira abaixo o vídeo com o depoimento da repórter Eliane Brum.